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O avançar da idade e os Caminhos de Santiago

Quando ultrapassamos a barreira dos cinquenta anos, o tempo parece passar ainda mais rapidamente, e somos (digo “somos” porque, em conversa com pessoas amigas dentro da minha faixa etária, estas confirmam estar a passar pela mesma, chamemos-lhe, “experiência”) e, dizia eu que, somos invadidos por uma pressa inexplicável de viver, de fazer acontecer, de não deixar para amanhã o que se pode fazer hoje, até porque, esse amanhã, torna-se cada vez mais incerto.

Tendo em conta a actual esperança média de vida, e numa perspectiva bastante positiva e animadora, mesmo conseguindo chegar aos cem anos, já teremos vivido mais do que aquilo que iremos viver. E se visualizarmos uma espécie de pirâmide cujo vértice corresponde aos 50 anos, já estamos, invariavelmente, no lado descendente.

E é um sentimento deveras avassalador, pois cria-se dentro de nós uma dicotomia entre o que devemos fazer e o que queremos fazer, e este último começa a ganhar terreno e cada vez mais a vontade é de fazer o que queremos e não o que devemos.

Porque, de facto, é preciso viver até esta idade para se conseguir fazer uma triagem adequada das nossas tarefas, e se há coisas que são realmente necessárias, outras há que podem esperar.

Na minha lista de “coisas para fazer antes de morrer” está fazer o Caminho de Santiago. E sim, tenho pressa em riscar esta “coisa” da lista. E a pressa advém do medo de que, com o relógio do tempo sempre a fazer “tic-tac, tic-tac”, se torne uma coisa inexequível.

A vontade é grande, a motivação também, energia não falta, poderá é faltar a conivência dos músculos e dos ossos, daí a pressa e o não querer adiar mais.

Neste contexto, tenho vindo não só a interessar-me cada vez mais pelo assunto, lendo bastante, absorvendo avidamente todas as estórias, dicas e sugestões que amigos e alunos me contam e me dão, mas também a preparar-me, quer física, quer psicologicamente e permaneço, ansiosa, pela oportunidade.

Mas para quê? Qual o propósito, afinal, desta caminhada? 

Não tem, de todo, a ver com religião, nem com promessas, tem a ver, sim, e acima de tudo, com superação pessoal, com o sair da zona de conforto, com o despojar-me de tudo o que é desnecessário e focar-me no que é essencial, no que é simples. 

Faz falta parar, ter um momento de introspecção, de reflexão. E nada melhor do que caminhar, estar em contacto com a natureza, com outras pessoas, perceber as suas motivações e dificuldades, perceber, contornar e ultrapassar as adversidades para, quando regressar, passar a dar (ainda) mais valor ao que temos de mais sagrado que é a nossa saúde e o nosso tempo.

Nota: Este artigo foi escrito seguindo as regras do antigo acordo ortográfico.

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