Literatura

Numa loja de espelhos

Imagine-se a entrar em uma sala com vários espelhos, alguns com molduras rebuscadas, alguns sem moldura sequer. Eles têm tamanhos diferentes, foram pendurados em alturas distintas. 

Surgem nas paredes respeitando intervalos, cuja regularidade não é assim tão fácil de medir, à primeira vista. Obedecem a um padrão?

Caminha nesse espaço com atenção ao seu reflexo. 

Quantas imagens você vê e de que quantos ângulos você as vê?

Talvez fosse o caso de perguntar, antes de mais nada – e para ser mais exata -, se você se interroga sobre o porquê de terem sido postos tantos espelhos no mesmo ambiente. Pois talvez seja mais importante compreender a obrigação de olhar à volta, num espaço que é nosso e ao mesmo tempo nos ultrapassa. 

Está em paz para andar pela sala?

Quem enfrenta essa questão da responsabilidade de ter olhos para ver pode pensar igualmente em janelas, em portas entreabertas, em corredores. Os espelhos são aliciantes como metáfora porque nos devolvem o nosso semblante, a cara com que olhamos o que está além de nós.

Porém, considere antes o seu nível de interesse por uma sucessão de corredores, por uma sucessão de portas e de janelas, se quiser.

É possível que note essas presenças como oportunidades.

Elas pipocam, elas nos surpreendem, desafiam-nos e, às vezes, não há simplesmente como evitá-las. Você pode ter sido convidado para o interior da sala de espelhos, como pode ter sido conduzido até ela como à única passagem, única forma de continuar caminho.

É neste ponto que eu reencontro a Malala. Malala está no meu caminho e é anfitriã, porque tem caminhado bravamente.

Deixei-a à espera faz alguns dias. 

Ela é boa estrategista. Não joga o mesmo jogo que os homens da guerra, que empurram pessoas para os campos na condição de refugiadas. Ela é forte. Ela é doce também e tem uma expressão contida. Estive a escrever sobre ela por causa de um livro de 181 páginas, divididas basicamente em duas partes. 

Há a Malala que narra resumidamente a própria história de fuga e de decisões e há a Malala que introduz as narrativas de outras meninas, em alguns casos com perspetivas que se completam, dando-nos condições de chegar mais perto das imagens de um cenário devastador.

Malala põe-nos a par do que aconteceu a duas irmãs, Zaynab e Sabreen: a primeira obteve visto para ir do Iémen aos Estados Unidos, enquanto a segunda arriscou tudo numa viagem de barco para a Itália.

Malala abre esta parte do livro com as histórias das duas irmãs de sortes diferentes e depois bate um prego para dispor à altura dos nossos olhos, numa parede crua, mais um espelho (porta-janela-corredor…). Passa a palavra a uma menina que ao chegar a um campo de refugiados sentiu-se grata por poder ir à escola. É Muzoon. 

Esta menina sabe o que é prioridade e pratica a partilha, por isso, vai igualmente levando pela mão outras meninas até lugares de onde é mais difícil ficarem indiferentes ou indecisas frente à diversidade e à humanidade do mundo. O relato de Muzoon termina com a constatação de que uma pessoa resgata a outra, se tem o dom de fazer ver uma nesga de solução: 

Tu e eu podemos provocar um efeito dominó. Se formos à escola, outras seguir-nos-ão.

A história seguinte é costurada à de Muzoon com dois fios, a educação e a esperança. Ir à escola sempre foi o norte de Najla, do Iraque. Ela sempre nutriu a esperança de estudar e viu, nos contextos de horror, a hipótese de ensinar outras crianças. A menina confessa a Malala que seu poder pessoal é a esperança, que ela associa ao estudo. Sua dúvida, tão, mas tão válida, ela condensa na seguinte pergunta: 

Sou uma pessoa forte e confiante… Mas se um dia perdesse a minha esperança, o que faria eu? Onde iria voltar a arranjar o meu poder?” 

Como conviver com esse espelho, como lidar com essa janela depois de aberta? Eu só consegui folhear este livro aos poucos, o fardo dos meus desafios choca com a bagagem dessa menina. É possível traduzir a pergunta dela em várias línguas. 

Na história de María, da Colômbia, a partilha e o exercício em torno de narrativas (para o teatro, neste caso), voltam a aparecer. É a história que sucede a de Najla. É mais uma história de assombro e de superação (“Desde aquela primeira casa, mudei mais oito vezes. Mas nunca me senti ‘em casa’ em nenhum outro lugar para além daquele que guardo vivo dentro da minha cabeça, o lugar onde cresci, antes de todo o meu mundo mudar”).

Em quantos espelhos alheios a sua imagem se fez ver, depois de trocar rápidos olhares com essas meninas? Diga, por gentileza, se você continua em paz.

Betina Ruiz

Nasci em 74, no Brasil. Lá estudei Letras, dei aulas, participei em alguns projetos ligados à educação. Estou em Portugal faz pouco mais de 13 anos. Também aqui fui professora e estive na universidade. E por duas vezes fui parar ao comércio! Por que não?

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