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Crónicas

Noah duas sem três

No passado mês de junho, Portugal sobressaltou-se com o desaparecimento do pequeno Noah. Rapidamente se envidaram todos os esforços para que a criança fosse encontrada, o que felizmente veio a acontecer.

Contudo, o povo português, melodramático e sabichão, que detesta finais felizes, depressa desenvolveu a teoria de que a culpa seria dos pais do pequeno Noah, o que em boa medida se compreende.

Nos últimos anos, temos assistido a inúmeros desaparecimentos, cujo alerta é dado, precisamente, por aqueles sobre os quais recaem, não raras vezes, a culpa pelos referidos desaparecimentos.

Recorde-se o caso da pequena Joana, morta às mãos da mãe e do tio e quase todos recordamos ainda as falsas lágrimas da sua mãe nos vários meios de comunicação social.

Anos mais tarde, a pequena Maddie, cujos pais nunca foram, estranhamente, julgados pela lei por portuguesa por exposição de três menores ao abandono. Tenham ou não responsabilidade direta no desaparecimento da menina, o certo é que a deixaram sozinha com os irmãos para poderem usufruir de um jantar num restaurante entre amigos.

Mais recentemente lembramo-nos de Rosa Grilo e do desaparecimento do seu marido, de Diana Fialho e do desaparecimento da sua mãe adoptiva ou do malogrado Rúben Couto aquando do desaparecimento de Beatriz Lebre, para citar apenas os mais mediáticos.

O que custa a compreender é que, após a confirmação da Polícia Judiciária de que não existiu intervenção de terceiros no desaparecimento de Noah, continuem a existir “pensadores” que queiram levar até ao fim a ideia de que os pais serão os culpados pelo sucedido. Para alguns portugueses existe sempre a necessidade de culpar alguém, de fazer sangue, mesmo que – para que se cumpra uma suposta justiça – se cometa a maior de todas as injustiças: a de condenar inocentes na praça pública.

Claro que poderíamos discutir aqui se estariam ou não reunidas as condições de segurança que permitissem ao pequeno Noah não sair da habitação, mas aí entramos no domínio do desconhecido.

Para além de estarmos perante rotinas familiares que são do foro privado, estamos também perante uma realidade do interior do país que em nada se coaduna com a realidade de hoje nas grandes cidades.

E não sejamos hipócritas. Quase toda a geração antes de 1990 cresceu desta forma, na ruralidade e sem que os nossos pais colocassem trancas na porta.

Em suma, percebe-se, pelo passado recente, que as atenções se centrassem nos pais na fase inicial ou durante as 36 longas horas em que duraram as buscas.

O que não se percebe é que elas permaneçam após a investigação da Polícia Judiciária que conclui não ter existido intervenção de terceiros e que a criança se perdeu de forma espontânea.

Esta necessidade que todos temos de ser juízes, teria dado muito jeito se tivéssemos mais pessoas a estudar para a magistratura.

Não sendo esse o caso, mantemo-nos como no futebol ou na política. Sentados no sofá somos muito expeditos a resolver os problemas e a culpar os outros.

Mais importante do que se assumirmos os nossos erros, é apontar o dedo e culpar alguém como forma de preenchermos as nossas próprias frustrações.

Balthasar Sete-Sóis

Balthasar Sete-Sóis, sociólogo, escritor, cronista, radialista e crítico literário encontra nas letras e na comunicação a realização e o sentido para aquilo que o rodeia.

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