Na quimioterapia

No último andar da unidade hospitalar está o serviço de hematologia. O nome enfeita, de modo quase gracioso, o que se passa naquelas salas. É um local impessoal, onde as caras demonstram enfado e infelicidade. Ninguém lá está por gosto, mas sim por necessidade. É doloroso no corpo, mas custa mais na alma e é uma cicatriz que nunca sara.

Era a primeira vez que M. ia ao tratamento. Quimioterapia. Que nome tão arrepiante e assustador. Ironia estúpida, também. Ela que gostava tanto de química iria sentir os efeitos no seu corpo. Uma química que lhe parecia tão longe como a Austrália ou a Gronelândia. Ali, à sua frente. Estava apavorada, não negava, mas tentava manter a calma. Aquela doença tinha-se aproximado dela e não tinha como fugir. Sabia tudo sobre os efeitos secundários, pensava ela. A teoria é limpa, clara e directa. A verdade é tão escura, bolorenta e escondida que só se descobre quando se passa pela situação. Por isso fazia tanta força com os dentes e os pés pareciam colados ao chão.

Chamaram o seu nome. A enfermeira era jovem e simpática. “Venha comigo. É a primeira vez. Não se assuste. Pode parecer difícil, mas vai perceber que não é tão mau quanto isso. É por uma boa causa. Sente-se aqui que lhe vou tirar sangue.” Ela não falava e deixou-se guiar. Sentiu que umas asas a empurravam e obedeceu. Quem lhe tirou o sangue foi um rapaz muito bem-disposto. “Então, como se sente? É só uma picadinha.” Não sentiu nada. Pareceu-lhe que não. “Tem que esperar para sabermos se pode começar hoje. Não se preocupe. Somos cuidadosos, só isso.”

O pânico. Era o pânico que se estava a instalar dentro dela e não a deixava falar. Estaria pior do que pensava? Não se mexia. Os olhos estavam colados numa rapariga na sua frente. Tinha um ar tão sofrido! Tão nova e estava ali. Usava um turbante vermelho e tinha uns fones. Dormitava ou ouvia música? Talvez tendo sentido o peso do olhar abriu os olhos. Sorriu para ela. Correspondeu-lhe. A enfermeira voltou. “Está tudo bem. Vamos começar.” Colocou-lhe a borboleta na mão e ligou a máquina. Um sinal fininho martelava-lhe na cabeça. Já não ia sair. “Habitua-se, vai ver. Quer uma manta? Não veio sozinha, pois não? Quando sair, vai-se sentir muito fraca. Já voltamos a falar. Então? Que cara é essa? Vai ficar boa não tarda nada.”

O corpo começou a descontrair e aquela sensação de intromissão invadiu-a. Doeu tanto! As lágrimas, revoltadas, saíram e escorreram livremente. Como é que aconteceu uma coisa destas? Eu estava tão saudável! “É o primeiro dia, não é? Chore à vontade. Eu chorei durante o tratamento todo. Não aguentei. É superior a nós.” Era a rapariga do turbante. “Olá! Eu sou a Beta.” Quis sorrir, mas os lábios ficaram colados e as lágrimas continuaram a deslizar. “Quantos vai fazer? Eu vou no sexto e ainda me faltam tantos. Se não quer falar eu entendo.” Conseguiu sorrir, um sorriso tão rascunhado que lhe saiu um “desculpe”.

A técnica veio falar com M. e explicou tudo o que podia acontecer: cabelo a cair, náuseas, fraqueza, unhas partidas e intolerância à alimentação. “Pode, não quer dizer que aconteça. Devemos prevenir. Quando sair daqui tem que repousar para o corpo aguentar o embate.” Assim, sem mais nem menos. Foi o melhor. De nada servem as palavras delicodoces, são muito melhor as fortes e brutas. Ficam logo arrumadas. A rapariga do turbante terminou o tratamento e chegou ao pé dela. Abraçou-a. “É para lhe passar as boas energias.” As lágrimas que estavam escondidas soltaram-se todas, vertiginosamente.

Em casa vomitou tudo o que conseguiu. Chorou o resto. Lembrou-se da Beta. Uma menina ainda. Que história seria a sua? Era o primeiro tratamento e já estava toda baralhada. Tinha que se acautelar. Diziam que confundia a mente. Tudo menos isso. O corpo já estava estragado mas restava-lhe a mente. Adormeceu. Sonhou tantos disparates que teve que os escrever e decidiu iniciar um diário do seu percurso.

No tratamento seguinte ficou ao lado da Beta. Tinha 17 anos e na dança caiu, sem forças. Cancro ósseo. “Queres voltar a dançar?” ” Claro que sim! Este ano já não posso ir ao campeonato, mas para o ano estou lá caída, vais ver! E tu, qual é o teu bicho?” “Mama”. “Que horror! Ainda as tens?” “Não, foram as duas. Paciência. Um dia terei outras.” Finalmente sorriu. Como é que alguém tão jovem se horroriza com um cancrozinho que até é curável? Ela é que estava mal. Ou não sabia ou auto-motivava-se. Foram o apoio uma da outra durante aquele calvário. E o apito da máquina sempre na cabeça de M. No fim de cada sessão tinham um ritual: o abraço muito apertado. “Até à próxima, minha querida. Vais ficar boa.”

Ao quinto tratamento a Beta não estava. Perguntou por ela. Era uma equipa nova e não sabiam quem era. “Vou verificar.” O bip nunca se desliga, só fica mais suave. Ecoa constantemente. Faz doer o cérebro. “A Beta já não vem mais.” “Ah! Acabou antes do previsto? Que bom! Quando é a operação? Já marcaram? Ela quer continuar a dançar. Vai conseguir, certo?” A enfermeira baixou os olhos e M. sentiu-se desfalecer. A Beta não voltava porque, infelizmente, já não existia. O bicho mau, como lhe chamava, foi um carrasco e minou-a. Sentiu-se órfã, abandonada, sozinha, espoliada, mutilada.

Quem lhe seguraria a alma? Quem lhe daria o abraço das boas energias? Quem lhe contaria como era a dança e sentir-se jovem para sempre? Quem? Apeteceu-lhe gritar! Sem cabelo, sem sobrancelhas e sem forças ainda aguentava, mas sem a sua Beta como ia ser a sua vida? Voltaram as lágrimas. Sentiu-se tão incomodada e tão miserável que pensou desistir. Depois lembrou-se das suas palavras: “Para o ano estou lá caída!” Limpou os olhos. À sua frente estava uma senhora assustada. Era o primeiro tratamento. Quando ligaram a máquina ela deu um pulo e encolheu-se. M., sorriu-lhe. “Chore à vontade. Também chorei no primeiro dia. E em casa ainda chorei mais. Quantos tratamentos vai fazer?”

O ritual que a Beta lhe ensinou foi perpetuado por M. que apertava nos seus fracos braços aquela mulher que tremia ininterruptamente. Ao terceiro tratamento já contava o que a tinha levado ali. “Cancro da mama. Estou no início. Tive sorte.” E apoiou todos os outros com quem se cruzou. Era a veterana e a força que a Beta lhe tinha deixado ainda permanecia activa.

No ano seguinte foi assistir ao campeonato de dança. Já tinha cabelo, muito ralo e as unhas, bebés, cresciam. Acompanhou todos os concorrentes, meticulosamente, como se estivesse dentro do assunto. No final levantou-se para bater palmas ao vencedor. Olharam para o seu entusiasmo e aplaudiram-na. A camisola que vestia tinha estampado “Beta és uma vencedora!”

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Comments 7
  1. Infelizmente existem muitas Ms. (e muitas Betas). Eu, por enquanto, sou uma M. E sim, é terrível entrar numa sala de quimioterapia. Pelo que se vai fazer, pelas caras que estão em frente e pelas que deixam de estar. Apesar dos imensos golpes que estas estórias nos deixam na pele, há imensos gestos que se nos gravam no coração. E sim, os vencedores não são só aqueles que continuam a frequentar as salas de quimioterapia. Beijinhos

  2. Ola boa tarde Margarida,
    Parabéns, parabéns, parabéns.
    O texto está fantástico. Vivi cada momento daqueles…senti cada palavra…as lágrimas invadiram o meu rosto, impedindo os meus olhos de continuar a ler. Recorri ao lenço de papel, e mais um e mais outro…

    Gostava muito da falar consigo sobre a minha experiência oncológica.
    Tenho intenção de escrever um livro, mas preciso de ajuda.
    Acha que podemos falar?
    ANA C. VIDEIRA

  3. Simplesmente fantástico,.. Tenho 30 e já vivo a “historia” a 9… Cada linha que li era dias lágrimas par a par… Cada dor.. Cada sorriso… Meus deus..a

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