Emocões e artes

“(…) Todos estes mecanismos se basearam na selecção natural de moléculas químicas presentes nos precursores dos sistemas endócrino e imunitário, e na selecção natural de programas de acção. Muitos desses mecanismos foram conservados até hoje; conhecemo-los como comportamentos emotivos.”

– in António Damásio, na Estranha Ordem das Coisas

As emoções e os afectos, positivos ou negativos, no Homem, são fruto da sua evolução biológica e a arte (toda ela) é também resultado dessa evolução. Que emoção ou afecto seria transmitida pelas pinturas rupestres do Neanderthal? Seria o Homo Sapiens um apreciador de arte?

O antigo Império Egípcio, para além de outras formas de arte, ficou conhecido pela capacidade do uso de cores e imagens, autênticos quadros que adornavam paredes, tectos e até o chão de palácios. Não obstante essa beleza artística, na realidade o propósito dessas obras era a comunicação, no fundo a tentativa (até agora bem sucedida) de perpetuar uma cultura, através da cor e da imagem, comunicando às gerações futuras a sua cultura.

A pintura acompanha a vida humana desde tempos imemoriais, facto que leva a crer que, a arte visual e as emoções, tenham crescido lado a lado.

A partir do Renascimento, as artes e naturalmente a pintura atingem, na minha opinião, o apogeu artístico criativo, facto consolidado pelo Iluminismo.

O Iluminismo representa o salto da mente complexa criativa no Homem, porquanto o Renascimento, representa a mente criativa em desenvolvimento.

No inicio deste artigo, citei António Damásio, neurologista e neurocientista, na sua obra “A estranha ordem das coisas”, isto porque Damásio associa os sentimentos e os afectos ao desenvolvimento da consciência e da capacidade humana em transformar imagens em palavras e palavras em imagens.

Damásio também refere que, os sentimentos e os afectos no Homem, não seriam possíveis sem a capacidade da mente humana em se estruturar por imagens.

Seja como for, as emoções e afectos são processos químicos e biológicos da mente complexa do ser humano, e de alguma forma a pintura despoleta esse fenómeno, tal como muitos (todos) outros factores diários.

Todavia, a pintura estabeleceu-se primariamente como um modo rudimentar de comunicação, com a função de comunicar acontecimentos, modos de vida, fenómenos naturais e religiosos. Com essa comunicação, se despertou na mente complexa humana emoções, tal como a musica o faz também.

Todas as formas de arte são cultura e a cultura é um exclusivo da Humanidade, ainda que no reino animal, existam também mentes complexas, dotadas de emoções, sentimentos, raciocínio e inteligência. No entanto, as mesmas não possuem a qualidade necessária para edificarem cultura e apreciarem artes, porquanto no Homem a mente complexa é subjectiva.

Não é deste modo a arte que despoleta por si só emoções e afectos no Homem, mas sim a subjectividade da mente humana. Nem todos apreciamos a mesma obra de arte de forma igual, e por isso não podemos despoletar as mesmas emoções nessa mesma obra, a subjectividade individual é que vai determinar esse sentimento.

Nota: este artigo foi escrito seguindo as regras do Antigo Acordo Ortográfico
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