A Solidariedade Social

A Idade Média, período que vai desde o século V até ao século XV, foi uma época de obscuridade, de trevas que se instalaram na sociedade europeia. A visão teocêntrica permitia controlar as populações e assegurar que se não respeitassem os ensinamentos, os castigos seriam duros e eternos. A ideia de céu e de inferno vulgarizou-se e dominou toda a cristandade durante estes 1000 anos. A igreja teve um papel duplo e antagónico, se, por um lado, aterrorizava os crentes, por outro lado, divulgava a palavra de Deus e a sua bondade infinita.

Deus viera ao mundo como pobre. Não se identificava com os ricos e poderosos, pelo contrário, as viúvas, os cegos, os leprosos, os pobres, os humildes, eram os que procurava para apóstolos e discípulos. Na pregação exigia o abandono das riquezas, exaltava os pobres de espírito e condenava os ricos e avarentos. O amor ao próximo era o seu grande mandamento e nele residia o princípio da solidariedade social e da justa distribuição dos bens. Assim sendo, as ordens mendicantes desenvolveriam uma teologia de salvação, onde o diálogo entre o rico e o pobre era exigido e necessário.

O despojamento das riquezas era um dos meios para alcançar a vida eterna, junto de Deus e dos Santos. Este era o motivo principal para a pobreza voluntária de eremitas e monges, no silêncio do deserto ou do mosteiro, onde meditavam e rezavam. Havia uma maior proximidade com o ente divino. Nos séculos XI e XII aparece o pobre involuntário, o que nasceu pobre ou que caiu em pobreza. As ordens mendicantes levaram a entender a pobreza não como um castigo, mas como uma redenção. Assemelhava-se a Cristo, o Deus humanado, que vivia em pobreza. ” Seguir nu a Cristo nu “foi o exemplo dado por S. Francisco de Assis. Cristo ensinou: ” Felizes os pobres porque deles será o reino dos céus” e “mais fácil será passar um camelo pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no reino dos céus”.

Era uma sociedade bipartida em ricos e pobres, poderosos e não poderosos, mas transformava o pobre e o oprimido na força salvadora. A riqueza tinha uma função social desde que posta à disposição dos outros e a esmola surge como instrumento de redenção. A caridade limpava o pecado e ajudava à vida correcta. A vida medieval era muito curta não só pelo número de anos como também pela força das guerras, das fomes e das doenças. O homem medieval não vivia, preparava-se para a morte através da oração e das doações por alma dos vivos e dos defuntos. O medo do juízo final obrigava a um religioso exame de consciência, de culpa e do pecado. Arder no fogo eterno assustava este homem temente e muito religioso.

Ao evitar morrer intestado, ou seja, não preparado para o falecimento, determinava a distribuição de uma parte dos seus bens, normalmente a terça parte, para obras de misericórdia e missas por sua alma. Por remissão dos pecados pediam-se preces, instituíam-se capelas e fundavam-se estabelecimentos de assistência aos mais desvalidos, aos doentes, aos leprosos, às crianças abandonadas, distribuíam-se esmolas por pobres, dotavam-se mosteiros e igrejas, libertavam-se servos e tomavam-se outras atitudes de limpeza de consciência. A solidariedade social entre os vivos exigia um elo entre entes e os defuntos.

A assistência não foi, durante a Idade Média, compreendida como uma função do poder real. O socorro foi entendido como obra da igreja secular e monástica. Assim, desenvolveu-se como a afirmação das obras de misericórdia que cumpriam uma função social em resposta a uma maior consciencialização da realidade da pobreza por parte da sociedade.

Por todo o reino a força da caridade e o tema da morte e do julgamento final fez crescer hospitais, albergarias e gafarias. Os primeiros e segundos destinavam-se a acolher mendigos errantes, pobres envergonhados, idosos, doentes, órfãos, caminhantes e peregrinos. Os doentes não eram o objectivo desta assistência, mas sim as intenções de solidariedade social para com os mais desvalidos. As gafarias destinavam-se a recolher doentes de lepra, uma vez que o contágio era perigoso. Eram reunidos em locais longe das aldeias e concelhos de modo a não assustarem o resto da população.

As mercearias, fundadas por D. Dinis, destinavam-se a acolher a pobreza envergonhada que, pela sua qualidade social, não podia esmolar. O Hospital dos Meninos tinha como objectivo recolher os enjeitados e os recém-nascidos abandonados, de modo a minorar o infanticídio. Também se criaram casas para recuperar prostitutas e preparar para uma vida futura, obra da Rainha Santa Isabel.

O inovador foi a criação das confrarias, que eram casas de solidariedade horizontal, de oração e caridade entre os vivos e para com os mortos. Era o amor ao próximo que unia estas pessoas sob a alçada de um patrono, um santo padroeiro que os protegia e defendia. Os confrades, irmãos desta família artificial repartiam o amor, a entreajuda, os conselhos, o acompanhamento na dor e na necessidade. Estes partilhavam o mesmo grupo social ou afim e tinham ainda um outro objectivo, a defesa de interesses do grupo profissional, o seu mester. Talvez se possa dizer que estiveram na origem dos sindicatos.

A noção de assistência social que conhecemos hoje é muito diferente da citada, mas a sua função continua a ser um pouco controversa. Se por um lado tem a função de auxiliar os mais necessitados, por outro, nada tem de teor religioso nem de defesa  de um grupo profissional. É função do estado, o colectivo de um país, e não de um grupo em particular.

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