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Contos

A noite

Nessa noite fodemos. E morreríamos na manhã seguinte, juntos, de mão dada. Esse era o plano, se não tivesse corrido mal.

O meu corpo vulnerável, uma cama de hospital diminuta, o seu pénis erecto a preencher-me com a cadência da lentidão. Foi o prazer possível, a ilusão da felicidade suprema. Depois de a doença ter sido diagnosticada, faz dois anos e meio, nunca mais sentira um homem. Durante esse período, senti-me só, incompreendida. Só, desumanamente só. Ele não estava ali por causa da minha reabilitação, mas por causa da nossa libertação, para nos salvar de uma existência degradada. Salvar-me da dor física, salvar-se da dor psicológica. Ele sabia de cor o sofrimento, sabia como calá-lo. E isso trazia-me mais serenidade do que qualquer teoria medicinal ou tratamento inovador. Compreendia-me melhor do que qualquer médico, familiar ou amigo, compreendia-me o cansaço de uma luta perdida.

Eu queria a salvação daquele inferno – não da forma como a impunham: com químicos que me comiam o corpo, que me dilaceravam a alma e me faziam vomitar as entranhas -, queria o paraíso. A entrada no paraíso consiste na cessação da dor, quero acabar a vida mas permanecer na eternidade, disse-me. Eu permitia-lhe a entrada na eternidade, ele permitia-me o paraíso. Seria o grande final. Quando tudo me parecia negrume, ele desvendava a luz, a paz ansiada.

Deixara de chover, entretanto. Aquele desconsolado gotejar lembrava-me a infância, a época em que eu já me sentia uma flor solitária na quietude da angústia, os dias que passava no isolamento, de mim e dos outros, os dias de uma órfã. Os vidros embaciados, por dentro, e molhados com as gotas de água da chuva, faziam espalhar a luz que reflectia de fora para o quarto escuro. Consegui ver-lhe os olhos amendoados, a mágoa na alma, a barba descuidada.

Nessa noite o tempo retrocedeu. Deambulámos pelas reminiscências até ao tempo em que eu ainda não era prisioneira do meu próprio corpo, na altura em que eu era bonita, o cabelo ainda não caíra e a minha vida ainda poderia ser o que não foi. Até ao tempo em que ele era um músico elogiado, um talento reconhecido, ao tempo onde a depressão ainda não se manifestara nele. Nunca quis saber o meu nome. Tenho medo de perguntar-te, dizia, sempre que eu mostrava a vontade, no decorrer das conversas, de saber o nome dele, o verdadeiro, não o artístico. Nunca mo disse. A sua boca cheirava a cinzeiro e o cabelo tinha vestígios de uma higiene inexistente. Na ponta dos dedos, a sensibilidade de um artista, as calosidades de um guitarrista. Tanto me arrepiavam como me feriam a pele, já muito fina, do meu corpo ossudo. Contou que vivia numa pensão rasca fazia meses e que evitava o gerente devido às rendas em atraso, que roubava comida da cozinha de um restaurante que ficava em frente e que amou uma mulher que o desprezou. Gaguejava algumas vezes e quando conseguia libertar as palavras pedia desculpa pelos bloqueios. Vítima de agentes artísticos sem escrúpulos, vira-se obrigado a tocar em bares pejados de bêbados e que, morto para a música, decidira também morrer para a vida.

Nessa noite fumámos haxixe. Não receámos que o odor e o fumo nos denunciassem, apenas preparávamos o propósito maior: ele queria o seu grande e derradeiro momento mediático, eu queria cessar a mortificação. Rimo-nos desbragadamente. Da forma improvável como o destino nos juntara (tantas vezes procurara uma resposta, uma solução, e, de repente, ela surgia-me sem avisar) e da minha falta de jeito para fumar. Contei-lhe que experimentara fumar apenas uma vez, na adolescência. Tinha 15 anos e, um dia, os cigarros do motorista da instituição resolveram aliciar-me. Fiquei de tal forma nauseada que prometi nunca mais repetir. Trinta anos depois a promessa desfizera-se por uma necessidade inadiável. Conhecemo-nos há uns dias no hospital e, antes que eu dissesse que sim, já ele nos preparava para o grande final.

A noite transformara-se num barco à deriva navegando uma tempestade de ondas emotivas, o deslumbrante estado da inconsciência que assomava o espírito. Nessa noite bebemos uísque. Até que a embriaguez nos anestesiasse as dores, as físicas e as outras. As sensações irrepetíveis de liberdade, os corpos despidos, as emoções desnudadas. Dentro de mim tudo estremecia.

Nessa noite o plano correu mal. Nessa noite morri, não esperei pela manhã. Ele não morreu. Nem nessa noite nem na manhã seguinte. Não atendeu ao pacto que ele próprio alvitrou. O meu corpo tinha a urgência, o dele, a resistência.

Nessa noite apaixonei-me. Por ele, pela ideia insidiosa de que as feridas têm cura, pela fantasia de um grande final, pelo desejo de que a eternidade e o paraíso recebessem os nossos corpos carcomidos.

Com toda a loucura saudável com que as estrelas rock cunham as suas vidas.

Manuel Jorge

Gosta de massa de peixe, do Benfica e de livros. Não forçosamente por esta ordem. Descobriu a escrita apenas aos 38 anos, mas ainda assim bem a tempo de conseguir desprestigiar esta arte. Acha, também por isso, que tudo lhe surge demasiado tarde e que nada na sua vida é precoce, tirando a ejaculação.

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