A mais comum rua do mundo – Parte II

Após o ataque do seu estranho vizinho, Luís trancou-se na sua nova casa com o pequeno Tomás ainda a soltar violentas golfadas de aflição. Os olhos do pequeno choravam e os do seu pai emanavam o terror que vinha do fundo da sua alma.

Ficarem trancados em casa era precisamente o que Luís mais procurou evitar nesta nova vida que não conseguia iniciar. Cada minuto no interior levava a sua mente a cirandar pelos feixes da luz do sol que penetravam pelas janelas até caírem na penumbra dos cantos escuros. Em cada viagem o rosto de Matias surgia, omnipresente, numa encenação macabra do maior erro da sua vida. O frio daquela noite ida sobrepunha-se ao calor do momento presente e a respiração de pai e filho condensava-se avisando-os da presença de alguém sem vida. Da presença de Matias.

Numa ida noite fria, a neve enclausurou a família de quatro alegres pessoas. Aqueciam-se com o calor do amor e a alegria das almas. Madrugada alta, ventos fortes tiraram Luís do seu leito. Percorreu o corredor lentamente. A cada passada colocava o pé esmagando um pequeno comprimido atirava para a sua frente. Na cozinha abriu uma janela convidando o inverno a entrar. Abriu uma garrafa de vinho e sentou-se. Serviu-se e bebeu. Os seus olhos estavam abertos, miravam a neve mas nada viam. O som do vento violentou a cozinha derrubando os frascos de especiarias e agitando as cortinas. O pequeno Matias acordou assustado. Olhou o seu irmão gémeo Tomás que dormia pacificamente. Levantou-se e perseguiu o som. Ao chegar à cozinha viu o seu pai imóvel a olhar o inverno e chamou-o puxando-o pela camisola. Luís, num instinto que nunca soube explicar, pegou na garrafa de vinho e atingiu Matias com toda a sua força adulta. Íris levantou-se sobressaltada. No corredor viu os comprimidos feitos em pó e correu para a cozinha onde encontrou o pequeno rapaz inanimado no chão com a cabeça envolta em sangue. No terror segurou Luís e sacudiu-o com força fazendo-o acordar do sonambulismo para uma triste e dura realidade que para sempre ensombraria a vida daquele lar.

Após semanas de terapia e acertos na medicação, fugiram para sul, para longe do inverno. Procuraram o anonimato na mais comum rua do mundo mas agora o tapete da normalidade fugia-lhes de novo sob os seus pés.

Íris regressou a casa e descobriu pai e filho sentados num canto da casa, abraçados e com o terror estampado no rosto. Correu para o seu filho protegendo-o no seu abraço e gritou aflita para Luís:

– Estás bem? Que aconteceu?

Ele respondeu saindo de casa a correr. Saltou as flores do seu vizinho e correu para sua porta. Sem se fazer anunciar derrubou-a com um pontapé violento. Depois ficou especado ao entrar na sala. O terror no seu rosto era a escultura humanizada do medo. Ele reconheceu aquela casa. Reconheceu a entrada, o sofá, os móveis. Lentamente abeirou-se de velhas molduras onde ele própria sorria. Reconheceu as cores das paredes e os quadros que as ornavam. Sabia onde eram os quartos e a cozinha. Para lá se dirigiu sabendo o que ia encontrar. No chão lá estava, o vermelho escuro do sangue seco. Em frente, uma janela aberta de onde podia ver a morte.

Aquela era a sua casa. Estava na mais comum rua do mundo. Nunca se apercebeu dali nunca saíra e que dali jamais sairia.

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