Uma cama que servia de palco, peluches que se transformavam num público ao rubro e uma vassoura cujo cabo segurava um microfone. Foi assim que se iniciaram os meus sonhos quando eu ainda tinha 3 anos. Comecei por ser cantora no quarto, na sala e, mais tarde, no chuveiro. De seguida, transformei-me em lojista e obrigava o meu irmão a comprar-me toda a roupa que tinha com notas em papel criadas por mim. Ambicionei ainda ser pediatra, veterinária, psicóloga e, por fim, o sonho que mantenho até hoje: ser atriz. Tudo isto antes de entrar na escola primária.
Com o passar dos anos, percebi que o que queria mesmo era ser adulta. Viver histórias, criar memórias e experimentar tudo e mais alguma coisa. Costumo dizer que gosto de tudo o que me faz sentir coisas, sejam elas boas ou más. Essa sede de sentir o máximo possível reproduziu-se numa ânsia tremenda em relação ao futuro. “Porque é que só posso escolher uma profissão? Porque é que não posso ter uma diferente todos os dias?”, dei por mim a pensar tantas vezes enquanto encarava o espelho do hall de entrada.
Depois de tanta procura, – e de tanto ouvir que não é possível exercer mil funções em simultâneo – percebi que a resposta certa existia e era a mais bonita de todas: o teatro e a arte de representar. Era essa a profissão que me permitia ser cantora, pediatra, veterinária, psicóloga e ainda me acrescentava o poder de viver mil e uma histórias que não a minha e ter variadas personalidades. Ainda hoje, essa é, para mim, a vida mais bonita que se pode levar, mesmo que não seja a que tenho no momento.
Infelizmente, o país em que vivemos não vê a mesma beleza na Arte que eu vejo. Por me sentir sozinha a remar contra a maré, aos 19 anos acabei por seguir um caminho que me pareceu o mais próximo ao que ambicionava para mim: o Jornalismo. Afinal, nesta área há espaço para tudo: para a Arte, para a Medicina, para o Direito, para a Economia, para a Política e muito mais. Tudo cabe no Jornalismo e, através dele, posso viver uma vida diferente todos os dias.
Quando assumi que iria ser jornalista, – sem nunca deixar de amar o teatro -, não tive dúvidas que queria estudar na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e dar o meu grito de liberdade. Passei a estar a 3 horas e meia de casa e a viver somente dependente de mim. A frequentar o curso, agarrei-me ao máximo de coisas possível para poder sobreviver financeiramente e, em simultâneo, ganhar experiência: comecei por escrever, aqui, no Repórter Sombra. Depois, passei para a rádio, onde ainda uso a voz para fazer companhia a tantos jovens que adoram usar a audição para sonhar. Escrevi para jornais regionais, fiz reportagens sobre os mais variados temas, cobri concertos, entrevistei artistas, criei histórias e descobri que a escrita é a maior arma que tenho na vida.
O jornalismo fez-me crescer muito. Na faculdade, senti muito a pressão das notas, como se elas disessem alguma coisa sobre nós. Decidi não ceder a essa pressão e continuar a lutar pela experiência. Dormi pouco, abdiquei de férias e cheguei lá. Compreendi que o meio académico não me ensinou o que pretendia e decidi continuar para o Mestrado. Continuei a achar que não era suficiente.
Hoje, com 27 anos, tenho a certeza que não é a faculdade que nos forma. Ela só nos auxilia, o resto tem de partir de nós. É fácil obter um 18 num exame e ser-se uma nódoa quando chegamos, de facto, à profissão. O difícil é ter amor pelo que fazemos. É dele que precisamos para procurarmos aprender todos os dias e, dessa forma, tornarmo-nos melhores e melhores à medida que os anos passam. Lutar por aquilo que queremos não se ensina. Ou está dentro de nós ou, simplesmente, não está.
É isso que tem vindo a acontecer desde 2019, ano em que terminei o meu Mestrado em Jornalismo e Comunicação: muita luta. Desde que se fechou o ciclo da vida académica, tenho sorrido para a vida com a certeza de que elas nos sorri sempre de volta. Se o que nos é transmitido na faculdade corresponde à realidade? Não. Contudo, aprendi que a realidade é bem melhor, porque depende de nós e da forma como encaramos cada desafio que nos aparece pela frente.
Terminada a redação deste texto, apercebi-me de uma coisa muito importante: mais do que querer ser atriz ou jornalista, o meu maior sonho sempre foi ser feliz. Para uns, ser feliz implica ser extremanente bem sucedido no emprego, trabalhar em televisão e ser seguido por milhares de pessoas ou, simplesmente, ter a vida profissional que todos dizem que devemos ter. Para outros, ser feliz implica criar uma família, ir a concertos e viajar pelo mundo.
Para mim, ser feliz é ter a liberdade de escolher. A liberdade de escolher que não quero estar aqui e prefiro estar ali. Que prefiro um salário mais baixo se isso implicar passar mais tempo com quem amo. Que posso amar o teatro e o jornalismo mesmo que me digam que “isso não dá dinheiro”. A liberdade de acreditar que as dificuldades da vida se tornam muito menores se tivermos a coragem de fugir aos padrões que nos impõem desde o dia em que nascemos.
A luta pelo sonho do jornalismo nunca foi, na verdade, a luta pela profissão. Em contrapartida, tem sido uma luta pela ambição de acordar todos os dias alegre e com vontade de viver o que a vida tem para me dar. Se a isso puder juntar a minha paixão por contar histórias, então, está tudo no sítio certo.
Nota: Artigo escrito no novo acordo ortográfico