A grande falácia da PACC, os sindicatos e a destruição do ensino público – Parte 2

A inocência e a ingenuidade dos portugueses na questão da PACC está a destruir o ensino dito público, por todos os intervenientes e muitos dos não-intervenientes acreditarem piamente que a prova de avaliação de conhecimentos irá de alguma forma separar os bons dos maus professores e deixar os maus de fora. Nesta segunda parte deste meu artigo de opinião, irei continuar a desmantelar esta grandessíssima mentira, em que todos fomos incumbidos a acreditar e que está a destruir o ensino público em Portugal.

Quarta grande mentira: sei que a manipulação de notas existe, porque existem filhos de sicrano e beltrano e porque também existem os rankings. Ora, o ranking de escolas como está feito não mede a indisciplina das escolas, não mede a qualidade dos seus professores, muito menos dos seus alunos. Os rankings são a média do aluno nos exames nacionais e estes fazem por sua vez média com as notas dadas na escola. Ora, a manipulação de notas existe e há bem pouco tempo tomei conhecimento da passagem administrativa de alunos por decreto. Fiquei chocada, ora lê:

“Despacho Normativo n.º 1/2005

54 — A decisão de progressão do aluno ao ano de escolaridade seguinte é uma decisão pedagógica e deverá ser tomada sempre que o professor titular de turma, ouvido o competente conselho de docentes, no 1.o ciclo, ou o conselho de turma, nos 2.o e 3. o ciclos, considerem: a) Nos anos terminais de ciclo, que o aluno desenvolveu as competências necessárias para prosseguir com sucesso os seus estudos no ciclo ou nível de escolaridade subsequente, salvaguardando-se, no caso do 9.o ano de escolaridade, o estabelecido no n.o 40; b) Nos anos não terminais de ciclo, que as competências demonstradas pelo aluno permitem o desenvolvimento das competências essenciais definidas para o final do respectivo ciclo.

40 — A avaliação sumativa interna, no final do 3.o período, implica: a) A apreciação global das aprendizagens realiza- das e das competências desenvolvidas pelo aluno ao longo do ano lectivo, traduzida nos termos dos n.os 32 e 33; b) A decisão sobre a transição de ano, excepto no 9.o ano de escolaridade, cuja aprovação depende ainda da avaliação sumativa externa; c) A verificação das condições de admissão aos exames nacionais do 9.o ano.

32 — No 1. o ciclo, a informação resultante da avaliação sumativa expressa-se de forma descritiva em todas as áreas curriculares. 33 — Nos 2.o e 3. o ciclos, a informação resultante da avaliação sumativa interna expressa-se: a) Numa classificação de 1 a 5, em todas as disciplinas, a qual pode ser acompanhada, sempre que se considere relevante, de uma apreciação descritiva sobre a evolução do aluno; b) Numa menção qualitativa de Não satisfaz, Satis- faz e Satisfaz bem, nas áreas curriculares não disciplinares, a qual pode ser acompanhada, sempre que se considere relevante, de uma apreciação descritiva sobre a evolução do aluno.”

Algo complementado pelo Despacho Normativo n.º  24-A/2012:

Artigo 12.º

2 — As decisões de transição e de progressão do aluno para o ano de escolaridade seguinte e para o ciclo subsequente revestem carácter pedagógico e são tomadas sempre que o professor titular de turma, no 1.º ciclo, ou o conselho de turma, nos 2.º e 3.º ciclos, considerem:

a) Nos anos terminais de ciclo, que o aluno adquiriu os conhecimentos e desenvolveu as capacidades necessárias para progredir com sucesso os seus estudos no ciclo subsequente, sem prejuízo do disposto no n.º 11 do artigo 9.º e no artigo 13.º do presente despacho;

b) Nos anos não terminais de ciclo, que o aluno demonstra ter adquirido os conhecimentos e desenvolvido as capacidades essenciais para transitar para o ano de escolaridade seguinte.”

A conclusão que tiro do que li e que acabei de copiar é que, se no 1º ciclo um professor primário quiser, ou no 2º e 3º ciclos um Conselho Pedagógico quiser, ou se uma Direcção de escola assim os “convencer”, todos os alunos passam até ao 8º ano inclusive. Acho que isto é ridículo, porque, se todas as escolas aplicassem isto, não haveria “chumbos” até ao 9º ano. Considero que as escolas estão a começar a usar esta técnica por causa dos rankings e cada vez mais pesar no dinheiro que lhes é dado, as boas notas que dão, não pelos bons  professores, ou os bons alunos que têm. Se a média de alunos, que passa numa escola é superior a outra, a primeira sobe no ranking e, por isso, recebe mais dinheiro, o que não está correcto, mas é assim que pelos vistos está a funcionar. Com os contratos de autonomia, que se estão a preparar já para o próximo ano lectivo, isto tem tendência a alastrar-se.

Quinta grande mentira: os contractos de autonomia são bons para a escola pública. Mentira. Os contractos de autonomia vão fazer com que as escolas tenham de gerir o seu projecto de escola de acordo com o dinheiro que é dado para todo o funcionamento da escola. Desde o pagamento a todos os funcionários, como o porteiro, as auxiliares, os professores, etc., às visitas de estudo, exposições, parque tecnológico, laboratórios, aulas extra, etc., etc. Sabe-se internamente, pelos professores contractados que estiveram a trabalhar sub-contractados por entidades privadas e outras que recebem menos do que o que é de lei pelas horas efectivamente trabalhadas, sabe-se que nem sempre pagam a horas, sabe-se que nem sempre recebem o último mês e sabe-se que há esquemas que a Segurança Social não está a conseguir desmontar de descontos mal efectuados em que o professor chega a perder o direito ao mínimo: o subsídio social de desemprego.

Sexta grande mentira: diz o Ministro da Educação que a PACC garante o decorrer do início do ano lectivo, pela primeira vez em décadas, dentro da normalidade. Ou seja, que até 17 de Setembro, último dia para se iniciar o ano lectivo, todas as turmas terão professor, ao contrário do que acontece há décadas. Ora, os concursos para este efeito fecharam dia 3 de Junho, pelo que o Ministério que faça o seu trabalho e coloque os professores atempadamente como prometeu e isto certamente não depende da PACC, pois que esta em última instância só irá atrasar o processo.

Sétima grande mentira: dos 46 000 professores a quem pretendia submeter esta prova no início deste ano lectivo, apenas cerca de 8 000 (cerca de 15%) compareceram nos dias da prova (mas muitos destes dentro da sala não a realizaram) e a ultra minoria  (menos de 10%) que a realizou foi sem condições de equidade. De referir, também, que cerca de 95% dos professores chamados a vigiar outros colegas recusaram-se a fazê-lo por 2 vezes.

A oitava e final, porque o texto já vai longo, não é que não hajam mais falácias neste processo, porque realmente as há. Porém, a oitava grande falácia saiu esta semana com os resultados da PACC, pois, como se veio a comprovar, esta prova nada avalia e nem sequer há uma lista de ordenação com o resultado da prova. Isto é, tal como acontece em qualquer concurso de professores, existe uma avaliação que tem em conta: tempo de serviço, nota de licenciatura, ou nota da qualificação profissional e data de nascimento, estes valores ponderados é que ordenam os professores em lista para poderem ser colocados. Acontece que nos resultados da PACC só aparece Aprovado, ou Reprovado e o que não se compreende é a forma como irão ordenar os candidatos. Penso que esta prova só serve para excluir candidatos, pois posteriormente o Ministério vai obrigá-los a preencher todo o processo do próximo concurso para fazer a avaliação tradicional, acima descrita, como sempre fez. Então, afinal para que serviu a prova? Obviamente, para excluir, de fora já estão 15%, ou seja, 5111 pessoas, que por serem objectoras de consciência, por se recusarem a colocar a sua cabeça nesta guilhotina, podem arriscar a exclusão total do próximo concurso. Estes professores são seres humanos com vida a viver, com contas para pagar ao fim do mês, com filhos, com comida para pôr na mesa. Somente se recusam a auto-humilhar-se depois de 6 anos de estudos superiores, de um estágio e de 15 anos ao serviço da Educação, em que, infelizmente, nesses 15, ou mais anos não somam 1825 dias de serviço como diz a lei, porque nunca tiveram um contrato anual de horário completo.

Pensa nisto.

É só uma opinião, no entanto, creio que todos os professores em condições semelhantes às acima descritas deveriam, com todo o direito e apoio das organizações e sindicatos, PROCESSAR O MINISTÉRIO. Digo eu, que só tenho muitos anos disto e vejo a escola pública a ser desmantelada de dia para dia, sob o olhar impávido de pais e cidadãos. As pessoas só acordarão, quando chegar o dia em que terão de pagar uma propina, para estudar no ensino obrigatório. É triste!

Share this article
Shareable URL
Prev Post

O dia do nascer do sol

Next Post

A Repartição dos Favores

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

Read next

I have a dream

“Eu tenho um sonho. O sonho de que os meus quatro pequenos filhos viverão um dia numa nação onde não serão…

Cumprir Portugal

Ontem, na sua tomada de posse como Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa citou Miguel Torga em…