A Dama que Ofusca a Noiva

Cavaco Silva é uma personalidade política marcante na sociedade portuguesa, escutada por todos com atenção. Salvaguardadas merecidas distâncias podemos talvez dizer que o PSD tem dois pais: o fundador e o executivo. O fundador foi Sá Carneiro precocemente desaparecido no misterioso desastre de aviação de 1980. O executivo é Cavaco Silva que veio dar continuidade ao projecto do fundador, deixando no inconsciente colectivo nacional o legado de prosperidade ocorrido durante a década em que foi primeiro-ministro, entre 1985 e 1995.

Tínhamos acabado de aderir à Comunidade Económica Europeia e os fundos jorravam em catadupas diárias nunca antes vistas, comparáveis apenas aos tempos do ouro do Brasil, centenas de anos atrás. O Portugal de 1985 era subdesenvolvido, acentuadamente rural, dotado de infra-estruturas e vias de comunicação obsoletas. A maioria dos projectos tinha ficado na gaveta por impossibilidade de financiamento.

As suas características de líder e a sorte com que as circunstâncias o bafejaram, levam Cavaco a cumprir o sonho português, aproximando-o da média europeia. Foi uma realidade irrepetível. O país pobre cresceu muito em pouco tempo, alicerçado na ajuda da Europa desenvolvida. Hoje Portugal não é o mesmo e saltos com aquela amplitude dificilmente serão exequíveis por mais investimento que seja disponibilizado. Contudo, a intervenção política de Cavaco Silva desde então ajudou a construir uma mística aura sebastianina, segundo a qual só alguém como ele poderá um dia realizar o mesmo ou melhor, libertando miraculosamente o país da estagnação em que as crises internacionais periodicamente o mergulham.

Rigoroso, austero e conservador, este pai executivo foi criticando a eito tanto adversários da oposição como os “filhos” que lhe sucederam na liderança. A primeira vítima foi Fernando Nogueira, primeiro herdeiro do cavaquismo. Estava-se em Setembro de 1995, com António Guterres lançado nas sondagens para ganhar as legislativas. Nogueira sobe nas sondagens até perto dos 40% e decide jogar a cartada de “uma maioria, um Presidente”, que lhe podia dar um fôlego decisivo no final da campanha. E espalhou a notícia de que Cavaco era candidato a Belém. Mas Cavaco desmentiu-o peremptoriamente afirmando: “não tomei nenhuma decisão sobre o meu futuro político”. O PSD cai nas sondagens e em Outubro Guterres ganha as eleições. Vinte dias depois, Cavaco Silva anuncia que é candidato a Presidente e Fernando Nogueira afastou-se da política.

Em 2003, numa conferência de homenagem a Silva Lopes, Cavaco crítica severamente o governo de Durão Barroso, seu antigo ministro, chamando a atenção para o facto dos ministros se furtarem às suas responsabilidades na condução da política económica. Aludindo à necessidade de respostas estruturais para aumentar a competitividade do país, Cavaco sugere que ou o primeiro-ministro faz pressão nesse sentido, ou então a ministra das finanças devia assumir as funções de vice-primeiro-ministro, para coordenar a política económica. Barroso certamente não gostou do puxão de orelhas e na primeira oportunidade libertou-se da influência do pai austero, rumando à presidência da Comissão Europeia, deixando Santana Lopes a substituí-lo no governo.

A substituição de Barroso por Santana não foi pacífica especialmente no PS que defendia a realização de eleições antecipadas. Jorge Sampaio deu-lhe posse, mas ao fim de poucos meses dissidências no governo levam Cavaco a escrever o célebre artigo no Expresso sobre a boa e a má moeda, referindo-se á degradação da qualidade dos agentes políticos e invocando que os incompetentes afastam os competentes, tal como na Lei de Gresham a má moeda expulsa a boa moeda, numa séria alusão aos episódios ocorridos no governo de Santana. Este viria ainda a público queixar-se dos irmãos que maltratavam no berço o seu executivo recém-nascido, mas o Presidente Sampaio acabou por dissolver a Assembleia da República e convocar eleições.

O governo de Passos Coelho (2011 – 2015) também não escapou aos reparos demolidores do pai austero. No segundo volume do seu livro “Quinta-feira e outros dias”, Cavaco critica duramente Passos Coelho pela “falta de equidade na repartição de sacrifícios” exigidos aos portugueses. Da crise da taxa social única aos cortes nas pensões, nos vencimentos e subsídios de férias e Natal dos funcionários públicos, Cavaco revela como, enquanto Presidente da República, discordou do então primeiro-ministro e como Passos Coelho se recusou a seguir os seus conselhos. E criticou fortemente não só o conteúdo das medidas do governo como a forma agressiva como este as apresentava, parecendo ter prazer em comunicar sacrifícios sucessivos ao povo.

Em 2015, PSD e CDS ganham as legislativas sem maioria absoluta. António Costa informa o Presidente Cavaco que está pronto para formar governo com o apoio do PCP e BE, mas este recusa tal casamento que considera inconsistente e dá posse a Passos Coelho, cujo programa de governo foi chumbado na Assembleia dias depois. Não teve outra alternativa senão a de indigitar António Costa como primeiro-ministro, não sem antes lhe exigir que o casamento fosse de papel passado, em compromisso escrito, que viabilizasse uma solução governativa estável.

Chegados à actualidade recheada de casos, querelas e episódios deploráveis de roubo e agressão, protagonizados pelo governo de Costa no último ano, Cavaco não se fez rogado e manifestou-se. Começou há cerca de um ano por desafiar com ironia António Costa a fazer mais e melhor do que ele tinha conseguido na sua década como primeiro-ministro, já que eram agora colegas na conquista de maiorias absolutas. E relembrou a Costa todas os feitos do seu antigo reinado, á guisa de meta para o actual governo. Seis meses volvidos e já Cavaco fazia uma avaliação negativa do executivo, apontando para “um conjunto desarticulado e desorientado de ministros desgastados, sem rumo, sem ambição e vontade reformista” (…) “Um governo à deriva navegando à vista”.

As cenas inopinadas ocorridas no quarto andar do ministério das infra-estruturas, amplificadas pela visibilidade que lhes deu a comissão parlamentar de inquérito à TAP, conduziram ao diferendo entre o Presidente Marcelo e o Primeiro-ministro Costa no que respeita á demissão do ministro Galamba. António Costa defendeu o seu ministro e Marcelo Rebelo de Sousa, visivelmente incomodado, mas algo contido, veio publicamente justificar o contrário.

Dias depois o Presidente mostrava-se junto a Belém saboreando um sorvete, dando a entender que o clima por ali andava gelado. Os jornalistas bem o assediavam, mas Marcelo pouco dizia. Um dia estacou na esquina do passeio junto ao palácio remexendo um quadrilátero solto na calçada, aludindo claramente a que tinha uma pedra no sapato, bem difícil de descalçar. Cavaco compreendeu as mensagens subliminares do Presidente e veio a terreiro desferir o golpe mais duro que se lhe conhece em intervenções públicas contra Costa. “O Governo é especialista na mentira e na propaganda política”. Usou ainda e de forma exuberante no seu discurso, palavras como “desarticulação”, “desnorte”, “falta de rumo”, “falta de visão estratégica” e “incompetência” para classificar as políticas do governo, convidando o primeiro-ministro a, “num rebate de consciência”, apresentar o seu pedido demissão.

Cavaco foi mais longe e elogiou Luís Montenegro afirmando que o líder do PSD estava preparado para ir a eleições e governar, mais até do que ele mesmo estivera quando venceu as legislativas de 1985. Contudo, no meio do enorme elogio veio embrulhada a maior crítica. Montenegro há meses que se evadia a respostas inequívocas, qual noiva indecisa na escolha do par para ir a eleições. Invocou até alguns critérios de exclusão do noivo, mas nunca pronunciou o seu nome. Ironia das ironias, Cavaco na sua qualidade de pai austero veio recomendar afinal à noiva que o melhor era… não casar. E no restante discurso empolgado contra o governo despiu a pele de pai austero, vestiu-se de dama de honor e brilhou, mas brilhou tanto que ofuscou completamente a noiva. Quando ao final do dia Montenegro ensaiou num potente vozeirão uma feroz critica ao governo e se manifestou pronto para tomar o poder, já ninguém reparou na noiva. Toda a gente ficou de olhos postos na dama de honor.

Cavaco parece não compreender que críticas públicas repetidas a grande parte daqueles que lhe sucederam no PSD, aliadas á disseminação da ideia de que ninguém conseguirá fazer mais e melhor do que ele, não estimulam as elites competentes para ascender na liderança. Ao invés disso, o pai austero que a todos se impõe como exemplo inatingível a seguir, vai criando um deserto em seu redor e contribui para o definhamento partidário. Ou será que Cavaco Silva quer mesmo regressar á política activa?

Nota: este artigo foi escrito seguindo as regras do Antigo Acordo Ortográfico
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