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Escolhas

Não podes escolher de onde vens, mas podes escolher para onde queres ir. Não podes mudar factos, mas podes escolher o que queres fazer com o que te fazem.

Desde que me conheço por gente, a minha vida foi sempre uma montanha russa de emoções, com grandes picos no baixo. Demorei muito tempo a perceber que a realidade em que vivia não era normal, mas pensei sempre que,em qualquer lugar, haveria certamente quem estivesse pior do que eu.

Filha de uma relação extraconjugal pautada pela obsessão unilateral da parte da mãe e pela vergonha da parte do pai. Lembro-me de ser miúda e alimentar a ilusão de querer ver os meus pais juntos e não pensava, e acho que não tinha de o fazer, no que isso poderia implicar. És criança, não queres que te façam cair da nuvem. Alimentas esse desejo secretamente, mais que não seja, porque te faz sorrir. Por que é diferente de tudo o que tu conheces.

Mas cedo percebi que era um sonho que não passaria disso mesmo. As circunstâncias não o permitiriam e com isso viriam intermináveis guerras, em que os filhos (sim, somos dois), seriam usados como armas de arremesso.

Durante três anos, à quarta-feira, às nove da manhã, a porta do Tribunal de Menores aguardava a minha chegada. Creio que já sabia de cor os meus passos, assim como eu já lhe conhecia as caras e os cheiros. Não sei bem o que ia lá fazer. Àquela altura tinha boas notas na escola, não havia queixas sobre o meu comportamento, o meu pai cumpria o regime de visitas e da pensão de alimentos… Era tudo uma grande confusão, mas sabia que era também única forma para que, por momentos, a minha mãe pudesse estar perto dele. Da pior forma possível, mas era assim.

Ia para a escola e a minha mãe estava na cama, voltava e encontrava-a no mesmo sítio, entre as ameaças do “vou-me matar” ou então “qualquer dia fujo!” Não me lembro de alguma vez me ter abraçado espontaneamente ou de ser capaz de demonstrar amor. Nem em palavras nem em gestos. Pelo contrário, havia sempre a humilhação e a necessidade de rebaixar.

Ou porque não era a pessoa que ela idealizou, ou porque não era bonita o suficiente, ou era o cabelo que não estava bem, ou a roupa que não condizia com o seu gosto. Da mais pequena à maior, nunca nada estava bem ou era suficiente. “Põe os olhos no teu irmão ou o teu irmão é que é um orgulho”. Tive que aprender a filtrar, mas ao mesmo tempo vivia magoada. A comparação nunca foi boa conselheira. O que fazia eu de tão errado? Porque nunca havia um abraço? Porque me eram cobradas tantas coisas? E porque me cobravam se me deviam tanto? Tive estas perguntas em loop a pairar na minha cabeça durante anos. Não encontrei respostas para todas e, honestamente, cheguei a uma fase em que estava tão rasgada por dentro que já nem queria respostas, só queria uma saída.

Há coisas que acontecem e não contas a ninguém, mas viver ali era uma espécie de sodomização da alma. Há coisas que nunca consegui dizer em voz alta. Houve coisas que me doeram tanto que, sinto que houve pedaços de mim que me morreram lenta e continuamente… e precisei de anos e de (muita) terapia para os fazer renascer. Desde polícia à porta porque sim, porta trancada e noites em casa de amigos para não ficar ao relento, histórias inventadas para preencher os egos de alguém e eu, tantas vezes vítima ( e odeio esta palavra), não era ouvida. Quem é que ia acreditar numa miúda? Havia violência repetidamente e outras tantas coisas que deixei fechadas numa gaveta para não mais lá voltar. Fui internada compulsivamente num desses episódios. Tinha levado, talvez a maior tareia da minha vida, e no fim terminei na ala psiquiátrica de um hospital. Não pude falar, não me pude defender. Doía tudo. O corpo, a alma e, principalmente, o coração. Como podia alguém ser tão dissimulado a este ponto. Fazer-te mal e tu seres a louca? Como podia alguém que, supostamente, tinha a obrigação de ser quem te protegia, violentar-te desta forma?

Acho que foi ali, nesse internamento, na paz que me deram, no silêncio que eu não tinha em casa, que consegui parar para perceber que o problema não era eu. Nunca fui eu. E aproveitei a ajuda que ali me deram. Sem pedirem nada em troca. Não estava habituada a isso. Tudo tinha um preço em casa. Ali, eu vi que tudo o que eu conhecia até então fugia da normalidade. E percebi também que havia vários traumas em mim. O medo da rejeição. Do abandono. O não saber gostar de alguém. O não permitir que me gostassem. O não gostar de mim. Odiei-me durante anos. Fruto, talvez, de tudo o que ouvia e, às páginas tantas, acreditas naquilo.  O extremo de permitir tudo para ser gostada. Sim, os extremos opostos de tudo o que está errado. Parece confuso, mas era exactamente assim, porque também a minha cabeça estava confusa.  E, ali, tracei o que viria a ser o meu caminho. Ali, eu tirei o túnel da frente da luz.

Aluguei o meu primeiro T0 com dezassete anos. E onde eu pensei encontrar leveza encontrei escuridão. A contradição de estar em paz, mas estar sozinha. Completamente sozinha. Eu não sabia estar sozinha, mas tinha paz. Mas não estava bem. Passei duas semanas no escuro a ter pena de mim mesma. Era eu e a medicação para uma depressão que me tinha sido diagnosticada. Chorei a minha vida toda ali. Chorei por mim, pela vida que não tinha e chorei por aquilo que ainda havia de ter. Não sei que clique me deu, mas um dia acordei e lembro-me de ter pensado que eu não era só aquilo e que havia muito para andar. Abri as persianas (e os olhos também) e pela primeira vez, vi-me e senti -me. E sabia que queria continuar a estar viva e não só a existir. Agarrei-me ao trabalho e à terapia. Trabalhava incontáveis horas para que a minha cabeça não pudesse parar nos mesmos lugares, nas mesmas pessoas e situações. E cortei com tudo. Escolhi não ter família. Escolhi não ter mãe. Escolhi ser órfã de mãe viva. Escolhi escolher -me.

Aprendi, na terapia, a olhar-me ao espelho. De dentro para fora. Aprendi a estar comigo e hoje, muitos anos depois, é o que mais aprecio, a minha companhia. Aprendi a aceitar tudo aquilo que não posso mudar e seguir em frente. Aprendi a respeitar-me e a impor limites. Aprendi a amar-me de uma forma que nunca tinha feito antes. Aprendi a ir embora de situações que me deixam desconfortável e, principalmente, que o amor é precisamente o inverso de tudo aquilo que me mostraram.

E essa é a minha luta todos os dias. Amar como nunca fui amada. Ser o melhor que posso ser em cada dia para os outros e, essencialmente, para mim. Ser a mãe que não tive. Ser a mulher que olha para a miúda de há trinta anos atrás e pensa “que orgulho menina!”. Ser um bom ser humano é o meu objectivo de vida e nesse espaço encontrar possibilidades de ser um bocadinho mais feliz. E não preciso de muito porque, cada vez mais, a felicidade faz -se de coisas pequeninas. Ver a minha filha sorrir. Ter os amigos à volta da mesa. Um dia de sol. Uma mensagem bonita de alguém. Rir, sempre e muito. Ter o coração em paz é o que me faz feliz. Ter a saúde mental em dia e não permitir que nada nem ninguém me tirem isso é o mote.

Demorei muito tempo a perceber que isso estava tudo comigo, cá dentro. Demorei muito tempo a perceber que eu me basto, que os outros não validam absolutamente nada sobre quem eu sou. E, depois de aprender isso, a vida só pode ser mais bonita e mais leve. Não é cor-de-rosa, mas tem, definitivamente, muito mais cor.

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