Reciclagem e dinossauros

Não sei quando foi a primeira vez que me alertaram sobre o aquecimento global. Era muito nova. Talvez até no pré-escolar me tenham falado sobre a reciclagem.

Ah, a reciclagem. Essa iniciativa bonita que nos venderam como sendo a solução milagrosa para o buraco na camada do ozono. Todos queríamos ter em casa os pequenos ecopontos verde, azul e amarelo, separar o lixo, incentivar os vizinhos. Na escola, tínhamos esses pequenos ecopontos em todos os corredores, aprendíamos a separar o lixo corretamente e a usar as sobras do jantar para compostagem, montávamos o pilhão que ficava orgulhosamente exposto na bancada da cozinha para pormos as pilhas usadas. O pilhão, o oleão, o ponto eletrão, o ecopontozão. Para tu fazeres, na tua casa, na tua aldeia, na tua cidade.

Mais iniciativas surgiam: limpar as praias, receber o “homem do lixo” para dar uma palestra nos colégios, visitar as ETARes, plantar árvores e recolher o lixo em volta da escola. Contudo, o “problema” do aquecimento global parecia não abrandar. Pelo contrário, deu-me sempre a sensação que, independente do que nós fizéssemos, nunca seria suficiente.

A inocência ou ingenuidade ou a confiança na bondade da nossa espécie fez-me acreditar que queríamos todos remar para o mesmo lado, que ao vermos o gelo a derreter debaixo dos pés dos ursos polares e a temperatura a aumentar todos os anos estaríamos dispostos a fazer os esforços necessários. As palhinhas de metal, as tote bags, os plásticos substituídos por plástico reciclado, desligar todas as tomadas da casa para reduzir o consumo, reaproveitar água da chuva, comprar localmente.

Senti (e sinto) muitas vezes que estamos a fazer pouco. Contudo, a verdade é que, por mais que façamos, será sempre pouco, porque os verdadeiros deal-breakers pouco ou nada fazem. Não estamos todos a remar para o mesmo lado, nem sequer estamos todos a ver o nível da água a aumentar. Como é que o meu duche rápido pode combater o desgaste de uma indústria fast-fashion? Como é que a minha reciclagem doméstica pode combater a super produção? Como é que a ação social de uma escola plantar 100 árvores pode combater os hectares de floresta destruídos para albergar uma nova cadeia de hotéis?

“Ah vamos criar taxas/impostos para essas empresas pagarem por estarem a poluir”. Oh, e eles pagam. Pagam e continuam. Pagam com os trocos do pão. Pagam sem olhar para o talão. O querer mais e mais e mais sobrepõem-se à finitude dos recursos para obter esse mais. E quando acabar o mundo, onde vão buscar o mais?

Continuamos neste ram-ram de querer fazer muito pelo ambiente, procurar alternativas sustentáveis, ecologicamente responsáveis, o que muitas vezes significa economicamente elevadas – para nós, comuns mortais. Somos os verdadeiros atores na mudança, mas continuamos à espera dos senhores nos tronos de marfim. Nós vemos o mundo onde estamos, esta Terra onde andamos, a sua finitude e a nossa pequenez; e eles parecem ver o mesmo mundo, mas a seus pés.

Gosto de me lembrar que somos pequeninos. Às vezes esse banho de humildade só chega na onda dos tsunamis, nas catástrofes das inundações. Pouco e pouco, esses desastres naturais vão sendo cada vez mais frequente e mais destruidores à sua passagem. Muitas vezes faço o paralelo com “Eras da Extinção” que este planeta foi tendo. Esse pensamento faz-me sempre concluir que por muito grandes que achemos que somos, os dinossauros também eram muito grandes. Eles, coitados, andavam cá por andar e foram varridos num estalar de dedos. E nós, na nossa ganância de querermos ter mais e mais e mais, estamos a ser levados aos poucos, como que sendo avisados de que, se calhar, está na hora de começarmos a tratar melhor a nossa casa.

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