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A praia da minha vida

Há muito tempo que não vou lá, mas irá ser sempre a mais linda, para mim. Estou a falar da maravilhosa praia de Monte Gordo, “a melhor praia do mundo”. Foi a praia onde passei os melhores dias da minha infância e adolescência.

Desde muito pequena que os meus pais lá alugavam casa, no Verão. Quando chegávamos, depois de muitas e muitas curvas pela serra do Caldeirão (mais de trezentas), era uma grande festa. Antigamente, eram muitas horas de viagem até lá, pois não havia autoestrada. Com a agravante de, tanto eu como a minha irmã enjoarmos, mesmo tomando um comprimido. Assim, tinham de existir várias paragens durante o trajecto.

Os donos do alojamento do Algarve já nos conheciam bem. No Verão alugavam a casa e viviam no anexo, tal como muitos outros habitantes faziam. Tinham um cãozinho que dum ano para o outro não nos esquecia e era muito bom revê-lo. Com ele íamos logo dar uma volta pela terra e ver os outros cães conhecidos na zona. Até quase havia birras e guerras entre eles, pois todos queriam a nossa atenção. Sim, até as amizades de quatro patas permaneciam. E nós sempre adorámos qualquer animal.

Depois de ajudarmos um pouco a arrumar as coisas lá em casa, ia a correr até a praia, ver como estava a água. Sempre quentinha. Os filhos da farmacêutica também eram nossos amigos, dizíamos-lhes que já tínhamos chegado, e assim se começava a reunir o mesmo grupo, de todos os anos. Éramos uns dez.

Por volta das 8h, já a minha irmã e eu estávamos dentro de água. Se não nos chamassem, ali ficávamos todo o dia. A água sempre calma, transparente e cálida, era do melhor, tal como o enorme areal.

Quando a maré estava vazia, apanhávamos conquilhas. E grandes colecções de conchas fizemos, íamos encontrando sempre muitas na areia. A meio da manhã, depois dumas belas caminhadas à beira-mar pela areia dourada, em que íamos quase sempre até à Manta Rota, tínhamos de comer uma belíssima bola de Berlim, pois claro. Nunca mais saboreei nenhuma tão deliciosa como aquelas. O vendedor, muito moreno e magro, com chapéu de mexicano, por causa da torreira do sol, lá ia apregoando: olha a Bola de Berlim, quentinha! Até parece que o estou a ouvir …durante anos era o mesmo pregão. Até ficar velhinho.

Íamos a casa almoçar pela hora do calor, e, a meio da tarde, regressávamos para o areal.

Quase todos os dias comprava um livrinho de banda desenhada na papelaria, que tinha um pouco de tudo. Ainda me lembro do cheirinho a papel quando se lá entrava. E também me lembro do cheiro óptimo duma sopa da Pensão Espanhola, quando íamos para a praia e passávamos mesmo ao pé.

De tarde, ocupávamos algum tempo a jogar às cartas na praia, sendo todos uns grandes batoteiros. Também jogávamos ao prego, eu adorava. E fazíamos construções de areia, com as formas e os baldes e as pás. Dava mesmo gosto no fim, saltarmos e desfazer tudo o que se tinha construído. É o que quase todas as crianças fazem! E assim se ficava até ao pôr do sol, brilhando no mar, e tão lindos eles eram. E devem continuar a ser, claro. Como aqueles nunca mais vi nenhum.

A lua cheia à noite, no mar, parecia uma autêntica miragem.

Não era só estar na água, também íamos até ao pinhal. E eu adorava ir ver o habitat, muito variado, principalmente os camaleões, animalzinho simpático. Por falar em animais era maravilhoso ver as centenas de gaivotas que permaneciam à beira-mar, de manhã muito cedo ou ao entardecer. Lindíssimo.

Havia uma gelataria à entrada da praia que tinha os melhores gelados artesanais dessa época. A Firmo, se não me engano. De vez em quando à tardinha comíamos um sorvete.

Às vezes passeávamos até Vila Real de Santo António da parte da tarde, a dar uma voltinha, ou apanhar o barco até Ayamonte. Como havia fronteiras, a emoção era grande para a gente miúda, era uma aventura atravessar a fronteira para outro país.

Não me esqueço também das saídas nocturnas. Enquanto os nossos pais ficavam a conversar na esplanada, íamos todos ver casas assombradas. Quer dizer, estavam abandonadas e em ruínas, mas, na escuridão, qualquer som que de lá viesse era um fantasma. Assustávamo-nos uns aos outros e fugia cada qual para seu lado, a gritar.

Quando havia marés vivas era muito divertido ir para o meio das ondas. E depois ouvir as repreensões dos banheiros. As algas que costumavam aparecer de vez em quando é que se tornavam ligeiramente aborrecidas, mas nada que fosse impeditivo dos belos mergulhos e banhos.

Esta fase é essencialmente da minha infância, entre os seis e os doze anos.

Fomos crescendo, sempre todos os anos a ir o mês de Julho ou Agosto para lá. Chegámos a ir em Setembro, mas já era muito ventoso e até já chovia, embora fosse mais calminho, pois não havia tanta gente.

Continuando este resumo, a partir dos nossos 15-16 anos, já não íamos às casas assombradas de noite.

Passámos para o nível seguinte, começando a ir às discotecas e ao casino, à socapa. Era muito fixe parecermos mais velhos e conseguirmos entrar nas discotecas e no casino. E ganhar ou perder (principalmente) nas máquinas, as moedas que os nossos pais davam, pensando que era para comermos gelados ou beber refrescos.

Também durante o dia, as conversas de adolescentes durante as pausas dos mergulhos eram diferentes, e jogava-se badminton, além de outros jogos de cartas, para mais crescidos.

E muito mais havia a dizer, mas não quero tornar esta divagação aborrecida. São recordações que ficaram para sempre. E agradeço ao universo terem passado na minha vida pessoas maravilhosas, nesta altura da minha vida já distante.

Nota: este artigo foi escrito seguindo as regras do Antigo Acordo Ortográfico
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