Estava a ler um romance quando lhe entrou uma prece pelo ouvido

Estava a ler um romance quando lhe entrou uma prece pelo ouvido. Pousou o livro e, com a ponta dos dedos, agarrou cuidadosamente na última letra. Puxou devagar para não se perder nada: nem as palavras, nem a voz, nem as entrelinhas.

Agarrou a prece entre as unhas e observou-a. Tocou em cada letra para conseguir sentir a língua, ouvir o tom, ter no céu da boca o sabor peculiar da mistura entre desespero e esperança de quem recorre a uma divindade em último recurso.

Havia algo de errado.

Lambeu a prece. Cheirou-a.

Nada.

Voltou a tocar em cada letra, os dedos trémulos à procura de uma resposta urgente.

Nada. Não era dele. Não era para ele. Não a conseguia perceber.

Mas como assim?

Observou-a de novo, olhos surpreendidos. Parecia inteira, menos mal; não queria ter orações alheias rotas dentro dele. Sabe-se lá o que isso podia fazer à essência de um deus.

Uma prece chega aos ouvidos da divindade errada. Não se lembrava de alguma vez ter acontecido. Só o deus invocado podia soprá-las e torná-las parte do Universo, pó de estrela que passaria a fazer parte da vida do orador. Ou engoli-las, ignorá-las, fazê-las desaparecer.

Não sabia o que fazer com aquilo. Poderia um deus encaminhar uma prece para outro? Deveria guardá-la? Abrir a janela e deixar que encontrasse a divindade certa? Enviá-la de volta ao espírito de quem precisava de ajuda?

Colocou-a no colo e tentou voltar à leitura. Acompanhou um diálogo com um meio sorriso, suspirou num parágrafo particularmente poético. Levou a ponta dos dedos à língua antes de passar de página. Mas sentia os joelhos quentes, como se o sofrimento daquela oração o quisesse chamar, queimar, incomodar.

Perguntou-se o que aconteceria se fosse ele a soprá-la. Seria atendida?

Pousou o livro de novo e levantou-se. Foi até à janela. Fez cair a Lua, o silêncio e os sonhos. Acendeu os pirilampos, bichos-noite que eram meio estrela e meio música. Sentiu-se entusiasmado, a brilhar, como se estrelas explodissem dentro dele. Há milhares de anos que um deus não fazia algo pela primeira vez. Fechou os olhos, ouviu os sons da noite, levantou a mão com a prece e soprou-a para o Universo.

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