“És mesmo rabino!”

Crescer no Alentejo é diferente, tal como crescer em qualquer outra parte do mundo é diferente. Permite-nos ter vivências, aprender coisas diferentes. Ver a vida quotidiana a outro tempo e de outro modo, se nos torna mais rijos? Há quem diga que sim, certamente trouxe-me aqui, moldando-me.

Para se entender como é ser-se criança alentejana é necessário olhar com olhos muito carinhosos para a avó. A avó, normalmente de bata, avental ou chapéu e lenço, é aquela que tem as mãos muito cuidadosas e ternas sem, no entanto, esquecer que para se crescer é preciso ser-se traquina, cair, abrir a cabeça e partir pratos. A avó é a que insiste para comermos, é aquela que nos nega o chocolate à frente dos pais, mas dá pelas costas. Avó é aquela que, se ralha connosco, diz que o Homem do Saco anda a levar as crianças mal comportadas e que nos vem buscar. Avó é aquela que anda sempre muito atarefada, mas não perde um momento para pôr a conversa em dia. Avó é aquela que nos ensina a dormir a sesta (a folga) e que nos acorda cedo… bem cedo… às vezes violentamente cedo! A avó é o cordão umbilical que nos liga ao aspeto prático de manter uma criança bem nutrida, bem dormida e bem vestida. Avó não nos diz “Põe um casaquinho que está frio”, avó enfia um gorro pela nossa cabeça sem necessitar de validação ou opinião. Avó limpa-nos a cara com um bocadinho de baba, porque a língua da avó é santa. Avó é o Alentejo que guarda o calor da lareira no xaile para nos abrigar.

Depois é preciso olhar com muito respeito para o avô. O avô tem as mãos rugosas e ásperas e sabe mal dar-lhe um beijo porque pica. O avô consegue fazer todas as coisas que as outras pessoas fazem, mas só com meia-dúzia de movimentos. O avô sabe sempre quando vai chover ou fazer um “calma dos diabos”. O avô senta-se muito tempo ao sol, sabe o nome dos pássaros e das árvores. O avô leva-nos ao campo, para a horta – põe-nos a cavar- ou à pesca, ou à lenha, ou guardar gado. Dá-nos rebuçados e quando caímos diz muito doce “Não é preciso contar à avó, está bem?”. O avô tem muitos amigos, mas cada vez tem menos. O avô conhece toda a gente da vila e sabe ir para todo o lado de carro ou a pé. O avô manda-nos fazer mandados por todo o lado para aprendermos a ser homenzinhos! O avô… ensina-nos os palavrões que a avó não gosta e às vezes troca-nos o nome pelos dos outros netos… não faz mal, de qualquer forma quer bem a todos eles. Avô é campo, é sol, é chapéus pretos, samarras, cajados. Avô é o cheiro a ração de cães que alimenta demasiado (como a avó nos alimenta a nós). O avô é o Alentejo que sabe as estações, que sabe as sementeiras e sobrevive a tudo.

A família é talvez a coisa mais importante no Alentejo. Sabemos quem são os nossos primos, primas, tios, tias… são centenas! Mas existe outro componente que é bom salientar: a vizinhança! Quando a vizinhança nos vê fala-nos, pergunta pela mãe, pelo pai, pela escola. A vizinhança chama-nos (brada-nos), no meio da tarde, para mandar recados, pedir ervas ou ovos. Os vizinhos gostam de nos ver jogar à bola ou ao berlinde na rua, eles contam-nos anedotas e adivinhas, explicam como se joga ao polícia e ladrão, à macaca, à mosca. As vizinhas cantam e têm o hábito de nos puxar as bochechas, não sei porquê… Vizinho é um pacto de localidade. Vizinhança é o Alentejo comunitário, aquele Alentejo onde se ouvem as notícias mais interessantes, aquele que nos censura muitas vezes em coscuvilhices sem mal, mas também aquele que nos ajuda e protege.

Chegamos agora ao seio da família e, nesta altura, convém dizer que no que diz respeito à educação e governo em geral no Alentejo impera o matriarcado. “Quem manda é a mãe!” Por exemplo, quando queremos ir brincar com os amigos e perguntamos ao pai, ele responde “Vai perguntar à mãe”. A mãe é o punho doce e severo no lar. A mãe dá as regras e os horários, previamente decididos com o pai, mas transmitidos pela mãe. A mãe apoia na escola, nos hobbies e trata de coisas vitais como a higiene e saúde, alimentação e estudos. A mãe tem um pavor enorme que os pequenos rebentos não consigam adquirir as capacidades para sobreviver então ela esforça-se para que entendamos a lógica por detrás de fazer a cama, de agasalhar, de limpar a casa, de ser bem-educado. Porque “Um dia a mãe não vai estar cá!”. A mãe diz-nos quando tentamos subir um muro, fugir que nem doidos, fazer cavalinhos na bicicleta: “Olha que cais! E se caíres levas!”. Nunca nos chega a dar e se dá uma palmada nas nádegas diz: “É só barulho…”. A mãe é o berço que acolhe e é o puxão de orelhas leve que nos põe na linha.

Das frases mais horríveis que podemos ouvir é “Falamos quando chegares a casa” ou, a variante quando se está em casa, “Espera só até o teu pai chegar!” Isto basta para nos castigar, a antecipação mental da tortura que o pai vai dar. A maior parte das vezes, exagerada essa fantasia, quando o pai chega já a criança está rendida, arrependida e (apenas algumas vezes) corrigida. Pai é o punho da justiça. Mas na verdade o pai é aquele que nos leva com ele ao café, ter com “os grandes”, é aquele que se levanta de manhã para nos levar à piscina ou remendar a bicicleta. Pai tem mãos fortes, mas ainda com um toque sedoso quando nos afaga o cabelo ou nos põe ao colo. Pai leva-nos às cavalitas. E quando nos cansamos põe-nos a dormir aos seus ombros. Pai é mais maluco que a mãe, ele canta com os amigos e lê o jornal. Pai alentejano leva-nos à feira, aos bailes… Pai é o Alentejo em mudança, é o contraste entre a adaptação possível ao mundo de hoje, em relação ao avô, e é a resistência às ideias que se vão formando no mundo que vemos crescer no presente.

Por fim, os amigos. Os nossos amigos são os nossos confidentes. Eles são o nosso Alentejo das traquinices, do sair à noite só para estar ao fresco e ir para o campo ver as estrelas, o céu escuro com as árvores e os sons dos animais. Eles são a lama das corridas na terra, o pó das idas ao rio. Eles são a razão de se atravessar a vila, em Agosto, estando quarenta e dois graus de temperatura, para se ir andar de bicicleta, jogar à bola. No grupo de amigos há sempre aqueles que têm as melhores/piores ideias, aquelas que nos metem em sarilhos e em perigo, mas também nos fazem rir e criar memórias únicas. Memórias pejadas de cães-pastores, canas e casas na árvore, ovelhas, paus, pedras, coisas ferrugentas e feridas nos joelhos. Estes são o Alentejo das histórias de terror, do brincar nos largos e praças, do correr toda a vila a jogar ao polícia e ladrão, do futebol contra as paredes brancas. Da debandada. Estes amigos são o Alentejo que fazemos, aqueles que vão ser tantas outras coisas – aqueles que vão partir para outros sítios. Mas nunca deixarão de ser Alentejo e nunca abandonarão as nossas memórias de infância.

Há tantos outros intervenientes e tantas outras aventuras sobre crescer aqui que encheria páginas e páginas de crónicas. Crescer no Alentejo é, sem dúvida, ser-se criança num sítio onde há ar puro, há sol e há muitas pessoas de bem. É um sítio com alguma segurança e muito, mas mesmo muito divertido! Pode ser extremamente bom ser-se criança aqui, tal como em qualquer outro lugar… afinal as crianças têm esse dom de magia. Mas o Alentejo, sem dúvida… nos marca.

Assim é, no Alentejo!

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