Quando os filhos ganham asas

Os filhos são uma espécie de formação intensiva e permanente sobre a arte de amar. Quando eles nascem, connosco também nasce um turbilhão de sentimentos que nunca pensamos sentir em que a única perfeição é o ser que está nos nossos braços. Quando os filhos nascem, a nossa única certeza é aquele misto de dúvidas e incertezas, de encantamento, de medo, de alegria e de insegurança, tudo envolto num escudo protector chamado Amor. Um amor para a vida toda. Diria mesmo que é quando temos os nossos filhos nos braços que sentimos o mais próximo daquilo a que chamamos eternidade. É algo que não se explica, apenas se sente…

Quando os filhos são pequenos dizem-nos para aproveitarmos, porque “passa depressa”. E nós pensamos: “como é que passa depressa se eles serão sempre nossos filhos?!” E lá vem o tempo ocupar os diálogos da vida. E é neste diálogo que os filhos vão crescendo, encontrando o seu espaço e conquistando as suas vitórias. É neste diálogo que também vamos crescendo e aprendendo com os nossos filhos, num ensaio permanente em que todos estão à prova e em crescimento, filhos e pais. E se há pais que julgam saber tudo, desenganem-se, porque em matéria de filhos, estamos em constante aprendizagem numa espécie de laboratório, no qual as experiências e as transformações são conduzidas pelo amor.

Os filhos são uma escola. Com eles estamos sempre a aprender, principalmente a aprender sobre nós mesmos, sobre a nossa coragem de fazermos parte de uma obra esculpida pelo nosso amor. A aprender que, apesar de nos pertencerem, os filhos não são nossos, assim como não somos, ou não fomos, dos nossos pais… Os filhos nascem de nós, crescem connosco [nos mais diversos sentidos] e são educados e orientados por nós, para que ao longo do seu crescimento e formação pessoal ganhem asas que os permita fazer o seu próprio voo, livre e feliz, tal como nós, pais, também fizemos. É o ciclo da vida, e deixá-los voar é uma das nossas maiores provas de amor.

E é aqui que entra o desapego, um trabalho que tem tanto de difícil como de realizador, para os pais e para os filhos. Os filhos, ao aprenderem a voar sozinhos, estão a experienciar a sua autoconfiança, a sua segurança, a sua força, os seus erros, a sua independência e autonomia, a sua liberdade de escolha, a sua vida, a sua bagagem, o seu amor… Os pais, ao verem os filhos fazerem o seu percurso, num voo assistido pelo seu amor e dedicação, tomam a consciência de missão cumprida. É uma consciência feliz, mas também nostálgica, porque, embora a corrente do amor entre pais e filhos seja inquebrável, a verdade é que quando os filhos vão à sua vida deixam sempre um vazio, embora seja um vazio preenchido de amor.

Muitas vezes o amor aos filhos pode surgir sob a forma de repressão e obsessão. Mas isso talvez seja resultado do egoísmo e insegurança dos pais, do medo de perderem os filhos, num sentimento de posse como se alguma vez estes fossem deles. Esses pais, ao sentirem esta forma [deturpada] de amor pelos seus filhos, ainda que sem intenção, estão-lhes a cortar as asas para que estes não sejam livres de formar o seu próprio ninho e de dar asas também aos seus próprios filhos… E as asas servem para quê, senão para voar em liberdade?

Nesta matéria, a cada um de nós, pais, cabe dar o seu melhor. Se dermos o nosso melhor, missão cumprida!

Filho é um ser que nos emprestaram para um curso intensivo de como amar alguém além de nós mesmos, de como mudar os nossos piores defeitos para darmos os melhores exemplos e de aprendermos a ter coragem. Isto mesmo! Ser pai ou mãe é o maior acto de coragem que alguém pode ter, porque é se expor a todo tipo de dor, principalmente da incerteza de estar agindo correctamente e do medo de perder algo tão amado. Perder? Como? Não é nosso, recordam-se? Foi apenas um empréstimo.

José Saramago

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