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De Vingadores a Agentes da S.H.I.E.L.D

Eu whedoniano me confesso! Seja qual for o género, viria qualquer série escrita e/ou produzida por Joss Whedon. Mais ainda: eu veria qualquer série baseada no universo (cinematográfico, ou de banda desenhada) da Marvel. O que Agents of S.H.I.E.L.D me apresentou foi uma situação que nunca imaginei possível, ao ter numa única série uma ligação directa ao universo Marvel, com a condução de um dos meus realizadores favoritos e, só por acaso, ser o mesmo homem responsável pelo sucesso que foi o filme The Avengers. Ou seja, encontro-me no céu da geeklândia e encontrei o meu novo guilty pleasure.

Na generalidade do mundo das séries, os episódios-piloto não correm muito bem e não conseguem vingar pela sua excepcional qualidade, mas Agents of S.H.I.E.L.D consegue ter um trabalho ainda mais complexo. Por um lado, estes agentes têm de estabelecer a cronologia da série em relação ao universo cinematográfico da Marvel, apresentar as personagens principais e dar uma clara visão ao espectador de qual é o caminho que a série irá percorrer daqui para a frente. Por outro, têm a difícil tarefa de agradar a um target constituído por uma audiência que se apaixonou por um franchising e não ter presente na série nenhuma das suas personagens originais, com a excepção do agente Phil Coulson.

Este episódio (o primeiro de muitos, espero) deve agradar tanto a fãs dos filmes Marvel, como aos espectadores que estejam a dar os primeiros passos neste universo. O episódio, passado depois da destruição de Nova Iorque em The Avengers, centra-se no nosso herói principal, Phil Coulson, que havia falecido pelas mãos de Loki. O seu regresso do mundo dos mortos, rodeado de um grande mistério (será que o posso considerar de um Walking Dead?) poderia ser uma opção arriscada para um primeiro episódio, porém, o seu regresso é o mais apropriado, tendo em conta os desafios que um mundo repleto de humanos com poderes apresenta. Não menos importante é também a apresentação que é feita aos restantes companheiros da equipa de Coulson: a veterana que esteve a executar trabalho de secretária nos últimos anos, também conhecida como Melinda May, o agente relutante e sem aptidões sociais Grant Ward e o duo cromo extremamente falador composto por Leo Fitz e Jemma Simmons. Todos estes elementos, juntamente com Skye, a hacker mais habilidosa do mundo (e mais além), dão a este grupo a dinâmica tão habitual que Whedon construiu nas suas duas obras televisivas mais emblemáticas – Buffy, the Vampire Slayer e Angel.

Ao longo do episódio é possível ver apontamentos de outra série de culto da televisão mundial e da ficção científica em especial. Quando Ward explica num tom muito sério que esta equipa “protege as pessoas das notícias que elas não estão prontas para ouvir”, imaginei-o de cigarro na boca e a falar numa sombra, num qualquer episódio de Ficheiros Secretos. S.H.I.E.L.D alimenta a sua narrativa com os mesmos tópicos que a sua antecessora, criando um constante debate sobre o secretismo, a eficiência e o bem-estar de terceiros, em contraponto com a transparência de informação e a liberdade de expressão. Contudo, estes tópicos tão na moda na actualidade ganham uma nova abordagem, já que são os “heróis” a justificar o recurso a operações secretas para um fim maior, enquanto que os seus antagonistas, como a hacker Skye, é que pretendem lutar pela exposição da verdade de determinados casos.

Também num paralelismo com os temas abordados em Ficheiros Secretos está o medo pela omnipotência e pela omnisciência governamental. As questões colocada por Skye (“Como é que irão chegar até nós? Pelo ar? Pela terra? Como é que nos irão silenciar desta vez?”) são legitimamente assustadoras, apesar do tom cómico com que são abordadas atenuar o impacto que poderiam causar. A própria S.H.I.E.L.D está construída em várias camadas de segredos, estando o maior deles todos, até ao momento, associado ao líder da equipa, já que o próprio agente Coulson está a ser ludibriado relativamente à sua morte.

Apesar disso, existe ainda uma ideia original na base do desenvolvimento da acção de toda a série. Agents of S.H.I.E.L.D é, conscientemente, uma série sobre pessoas sem poderes, num mundo de super-heróis, e o primeiro caso apresentado levanta a questão da aceitação da sociedade de seres super-poderosos. Será que todos nós conseguimos aceitar um mundo de super-seres, mesmo que não sejam criminosos? Ou iriamo-nos sentir ameaçados com a nossa pequenez perante a sua grandeza? Como afirmou Josse Whedon no painel de apresentação da série à comunicação social, ele pretende criar uma história que se foque “nas pessoas que não têm um martelo poderoso, ou que não tenham acesso ao soro que criou o super-soldado. Quero passar a mensagem de que todos somos importantes.”

Com tudo isto dito (e já foi muito), vou voltar episódio atrás de episódio, para acompanhar as aventuras dos Agentes da S.H.I.E.L.D. Estou intrigado com as personagens, adorei a maior parte dos diálogos e acho que o baralho criativo está bem construído, de forma a ser possível criar uma série cativante. Não posso afirmar que foi a hora televisiva mais memorável dos últimos anos, mas soube mostrar a promessa de ser uma viagem interessante e, para além disso, sou um rapaz optimista. Como avisa Skye no episódio, “com um grande poder vem também uma grande quantidade de situações que não estamos preparados para lidar.” Se Whedon e companhia souberem responder correctamente a esta afirmação, então, Agents of S.H.I.E.L.D pode passar a ser uma série memorável, em vez de ser ser só uma boa série.

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Miguel Arranhado

licenciado em ciências da linguagem, pela faculdade de letras da universidade de lisboa. editor no repórter sombra. amante das artes e da cultura. politólogo de sofá. curioso por natureza. fascinado pelas pessoas e pelo mundo. crítico. perfeccionista. maníaco por informação. criativo. e assim assim…

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