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Abril… até quando?

(regressão ou revolução?)

Num mundo cada vez mais globalizado, onde temos a possibilidade de fazer parte de uma multiplicidade de culturas; integrando-se facilmente em países que, outrora, só se conheciam no mapa; verificar esta nova onda de Nacionalismo, com limitações ao espaço geográfico a que pertencem, é deveras preocupante.

Será que a evolução da espécie humana é uma regressão à sua condição primeira, de luta pelo seu território, numa vivência exclusiva de grupos distintos?

«Se a História, no sentido restrito de “conhecimento do historiável”, é o horizonte próprio onde melhor se apercebe o que é ou não a realidade nacional, a mais sumária autópsia da nossa historiografia revela o irrealismo prodigioso da imagem que os Portugueses se fazem de si mesmos.»

Numa temática como esta, seria de esperar que o recurso a excertos de O Labirinto da Saudade*, de Eduardo Lourenço, aqui fosse usado como meio de exorcizar os medos que aí se adivinham, com factos dum passado recente que muitos escolheram esquecer. Ou, ainda, fazem uso desse passado, incompreendido e maltratado, com expectativas num futuro, ainda mais esfumado que se avista, assim se continuando este pensar.

Será Abril para todo o sempre? Ou, serão as questões que, hoje, se levantam sobre Abril, uma ferida que abre a possibilidade de não existir mais? Os argumentos que se fazem soar agora, uma irónica afirmação que os tempos “bons” foram outrora. E, ninguém se questiona sobre isso. Tolera o abusador, com a certeza de que aqueles que se escolhem, mesmo que façam de nós vítimas, se aceitem porque assim somos permissivos, pacientes, ou incomodados pela liberdade que damos o nome de capitalização.

Essa não é a Liberdade de Abril!

De facto, avaliando o porquê do Abril de 1974, entende-se que tudo o que até aí existia, ou melhor, não era permitido, justifica o porquê de se estar em Abril de 2024, nas condições político-sociais que todos conhecem e, os mais cáusticos debatem a ferro e fogo, colocando mais achas na fogueira, em vez de se tentar arranjar soluções.

Tão felizes que nós éramos.

Anda por aí gente com saudades da velha portugalidade. Saudades do nacionalismo, da fronteira, da ditadura, da guerra, da PIDE, de Caxias e do Tarrafal, das cheias do Tejo e do Douro, da tuberculose infantil, das mulheres mortas no parto, dos soldados com madrinhas de guerra, da guerra com padrinhos políticos, dos caramelos espanhóis, do telefone e da televisão como privilégio, do serviço militar obrigatório, do queres fiado toma, dos denunciantes e informadores e, claro, dessa relíquia estimada que é um aparelho de segurança. Eu não ponho flores neste cemitério. Nesse Portugal toda a gente era pobre com exceção de uma ínfima parte da população, os ricos. No meio havia meia dúzia de burgueses esclarecidos, exilados ou educados no estrangeiro, alguns com apelidos que os protegiam, e havia uma classe indistinta constituída por remediados. Uma pequena burguesia sem poder aquisitivo nem filiação ideológica a rasar o que hoje chamamos linha de pobreza.

Clara Ferreira Alves

Uma estranheza esta de aqueles que não viveram um tempo outro, o considerarem legítimo e benéfico para os dias vindouros, desconhecendo na pele a liberdade que os ofende e a diminuem como se fosse coisa pouca que uns tantos poetas, militares e estadistas, num Abril de há cinquenta anos atrás, tudo fizeram para nos dar. Censura-se a Liberdade dada!

Abril, Abril…Abril, com tantas águas mil que já em ti caíram, quem és tu Abril? Será que ainda és verdade ou uma falsa ilusão? Para mim, serás sempre Abril, o meu Abril! De nascimento, da possibilidade de existir, da liberdade de expressão e da verdade que me deram, para não esquecer o que não tive a infelicidade de assistir. Abril da Liberdade, Democracia, Verdade.

“Casos, opiniões, natura e uso

Fazem que nos pareça esta vida

Que não há nela mais que o que parece.”

Camões

Este é um Abril sem esperança, só com a cor do sangue e, talvez, estejamos “em 2024 a envergonhar os que lutaram pela democracia e a mantiveram de pé”.

O que é a liberdade que ganhámos? Ou, o que será que aconteceu, entretanto, que a sociedade acha que perdeu? Talvez para se entender, se tenha de ir lá muito atrás na história da nossa História.

Os portugueses se atormentam, se perseguem e se matam uns aos outros, por não terem entendido que o Reino, tendo feito grandes conquistas, viveu por mais de três séculos do trabalho dos escravos, e que perdidos os escravos era preciso criar uma nova maneira de existência, criando os valores pelo trabalho próprio.

Mouzinho da Silveira, 1832

Nunca o conseguimos e nem nunca o iremos conseguir. Porque os valores que se exigem para esta mudança vão para além da condição humana, incapaz de se reger por padrões comportamentais de respeito a si e aos outros. E, não sou eu que o digo ou que acredito somente.

Há vinte e dois anos atrás, quando publiquei O Labirinto da Saudade, Portugal acabava de perder o seu velho império. E com ele – pensava eu – uma certa maneira de imaginar o seu passado através de uma mitologia responsável pelo fim da nossa história de nação colonizadora. Parecia, então, que o aparente fracasso da nossa mitologia imperial oferecia uma boa ocasião para “repensar Portugal”, para pôr a nu as raízes de um comportamento colectivo que nos levara, não àquele fim de império, que era inevitável, mas a uma guerra absurda, politicamente anacrónica e eticamente contrária à mitologia mesma do nosso colonialismo “exemplar”, com o seu humanismo cristão a servir-lhe de referência e de caução.

Não fui a única pessoa, em Portugal, que pensou, então, que era urgente reformular o nosso discurso histórico e cultural. *

O Labirinto da saudade

Acrescento, discurso político, também. Que nos aconteceu a nós? Nestes últimos cinquenta anos, para que se queira um Portugal, nacionalista, regido por imposições e contradições, um saudosismo social, enraizado não pela vivência, mas pela sua “tradução poético-ideológica desse nacionalismo místico, tradução genial que representa a mais profunda e sublime metamorfose da nossa realidade vivida e concebida como irreal”*.

E, é curioso ver e sentir agora, esta revolta dum povo descrente e, simultaneamente, ausente de si e da sua responsabilidade, contra um Sistema disruptivo, incapaz de se elevar a si mesmo, sem que se repense um Portugal futuro. E se o “patriotismo” sempre foi a “arma ideológica que serve de justificação desta permanente exaltação da entidade nacional regenerada pela supressão dos seus maus pastores e restituída ao povo”, a injustiça que se sente ou, afirma como legítima porque as políticas que se têm feito da imoralidade, a verdade das coisas, será um caminho novo este ou, uma regressão a factos do passado?

Num mundo globalizado; porque ninguém é uma ilha ou vive isolado, a querer um país nacionalista, conservador, ateísta; em pleno século XXI, 50 anos após uma revolução que fez de Portugal, um Portugal de esperança; radicaliza-se, não só o isolamento mas a equidade nos direitos de cada indivíduo. Numa “nova” encruzilhada nos encontramos. Porque não sabemos o que é Democracia, Liberdade e, muito menos, o que é Abril. Se democracia é igualdade (numa constante protecção das minorias), liberdade (condição daquele que é livre) e Abril (primaveril – em que a natureza se renova e mostra o seu esplendor).

Será que temos um outro Abril?

O momento parece propício não apenas para um exame de consciência nacional que raras vezes tivemos ocasião de fazer, mas para um reajustamento, tanto quanto possível realista, do nosso ser real à visão do nosso ser ideal. Nenhum povo, e mais a mais um povo de tantos séculos de vida comum e tão prodigioso destino, pode viver sem uma imagem ideal de si mesmo. Mas nós temos vivido sobretudo em função de uma imagem irrealista, o que não é a mesma coisa. Sempre no nosso horizonte de portugueses se perfilou como solução desesperada para obstáculos inexpugnáveis a fuga para céus mais propícios.

Eduardo lourenço

Será que temos memória curta?

Nota ao texto: Para aqueles ou aquelas que acreditam que este discurso é dirigido, desacreditem-se dessa ser a intenção. Porque este é um texto, como tantos outros, que aqui e além são redigidos, com a pretensa de ser reflexão. Um ver de dentro para fora, como habitualmente o faço, e não de fora para dentro, próprio duma condição de egolatria, para que a responsabilidade de cada um que agora tem voz, não ponha em causa o futuro daqueles que são os seus filhos. “O amor é sábio, o ódio é tolo” Bertrand Russell

A autora escreve de acordo com o Antigo Acordo Ortográfico

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Comments 6
  1. Artigo muito bem escrito e contextualizado, sobretudo quando menciona o filósofo e professor Eduardo Lourenço numa escrita que une o escritor à pátria e fala de “Repensar Portugal”. É premente pensar na condição atual do nosso país. Parabéns pelo artigo!

  2. Artigo muito bem escrito e contextualizado, sobretudo quando menciona o filósofo e professor Eduardo Lourenço numa escrita que une o escritor à pátria e fala de “Repensar Portugal”. É premente pensar na condição atual do nosso país. Parabéns!

  3. Artigo muito bem escrito e contextualizado, sobretudo quando menciona o filósofo e professor Eduardo Lourenço numa escrita que une o escritor à pátria e fala de “Repensar Portugal”.
    É premente pensar na condição atual do nosso país.

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