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CulturaMúsica

Rhys Lewis: as coisas que ele escolheu lembrar

Depois de passar alguns anos – desde 2016, para ser mais preciso – a lançar singles que, sem sombra de dúvida, atestam a sua qualidade enquanto interprete e compositor, foi em Julho de 2020 que Rhys Lewis, músico inglês nascido em Oxford no dia 18 de Março de 1993, se estreou nessa grande aventura que é lançar um álbum de originais, ao qual chamou “Things I Chose to Remember”, que permaneceu apenas uma semana no UK Albums Chart, onde ocupou a 93ª posição. No Spotify, ele tem mais de três milhões de ouvintes por mês e a versão acústica do seu single “No Right to Love You” já conta com quase 100 milhões de reproduções.

Contudo, falar de Rhys Lewis é muito mais do que falar em posições mais ou menos modestas em listas de vendas de álbuns ou estatísticas de plataformas de streaming. Falar de Rhys Lewis é falar do regresso a uma simplicidade arrojada e pouco convencional que a indústria já não tem em grande abundância e da coragem que é necessária ter para gravar um álbum de estreia de forma completamente analógica*.

Ouvir o disco dos pés à cabeça foi um exercício surpreendente, pela vincada simplicidade de que já vos falei, e, ao mesmo tempo, bastante agradável, com as melodiosas notas de audácia com que Rhys nos vai brindando, música após música, a serem o veículo perfeito para chegarmos onde o artista decidiu que seria o destino desta mensagem em forma de álbum de música.

Para abrir, ele opta por atrair-nos primeiro com uma sequência melódica relativamente simples ao piano, para depois nos agarrar definitivamente com uma voz de veludo que sabe ser mais doce ou mais áspera, dependendo da mensagem que quer transmitir, e que tem uma tessitura bastante interessante. Com o avançar das faixas, percebemos perfeitamente o que é que o influencia musicalmente: há claramente Pop, o que, obviamente, não tem nada de mal por si só, mas ao escutar mais profundamente conseguimos notar que há Soul, há Blues e há até órgãos e coros de Gospel. Há sintetizadores e baixos que se emaranham perfeitamente na música e na mensagem. Há até canções em que é possível ouvir o pedal do piano ou o barulho de fundo do estúdio.

É um disco orgânico em que parece que nada foi posto por acaso, mesmo as coisas que parecem ser obra do acaso. É esta combinação de boa utilização de técnicas, letras que contam boas e relacionáveis histórias e boas composições musicais, que faz de Rhys Lewis um artista com potencial para ser verdadeiramente especial. Não querendo ser precoce, pois ainda é cedo demais e este disco ainda precisa de mais tempo para ser digerido e apresentado, aguardo ansiosamente pelo segundo disco deste artista.

Concluindo, esta é uma obra introspectiva, íntima e pessoal – o próprio admitiu que tem dificuldade em interpretar algumas das suas canções ao vivo por despertarem memórias e vivências que não estão ainda bem resolvidas, ou que são demasiado recentes para não doerem mais – mas colectiva ao mesmo tempo, pois todos conseguimos rever-nos nas quedas, aprendizagens, renascimentos e crescimentos da vida, e todos nós já passámos por experiências que, de uma maneira ou de outra, conseguimos assemelhar às de outras pessoas com as quais vamos contactando.

Como Rhys, já todos sentimos o quente agradável de um sentimento recíproco, ou a dura frieza de sentir algo que vai, mas não vem. Já todos nos sentimos embrulhados na solidão que é saber que se perdeu alguém a quem já se pertenceu, no sentimento de vulnerabilidade e impotência da traição ou da mentira, ao mesmo tempo que todos nos sentimos com energias renovadas sempre que alguém nos estende a sua escada até ao fundo do nosso poço, ajudando-nos a subir e nos diz que vai ficar tudo bem. E vai mesmo!

(*) Para comprovar o arrojo e a coragem do Rhys, ele lançou no dia 12 de Fevereiro uma versão daquela que, para mim, é uma das melhores músicas de R&B alguma vez feitas: a “Halo”, da Beyoncé. Não sendo, obviamente, a original, esta é uma versão em que tudo está no lugar certo: o cadencia algo urgente criada pelo arranjo da guitarra, a percussão, o arranjo de cordas, a voz que vai onde o Rhys quiser… tudo bate certo. Foi uma bonita surpresa e é mais uma razão para estar expectante com o que aí vem deste jovem músico que tem já um caminho – e que caminho! – claramente traçado.

Nota: este artigo foi escrito seguindo as regras do Antigo Acordo Ortográfico

Tiago Gonçalves

A música, que é a minha forma de arte predilecta, é o meio de transporte que gosto de apanhar para desenvolver a minha visão das artes em particular, e do mundo em geral, assim como o meu pensamento acerca do mesmo. Assim, gosto de ir mais além sobre o que me faz vibrar os tímpanos: mais do que tentar sempre perceber o porquê daquela cadência rítmica, daquela linha melódica e daquela sequência harmónica, lanço-me para o que está a ser dito e como está a ser dito, o que me leva muitas vezes – quase sempre, na verdade – para as problemáticas que enfrentamos enquanto indivíduos e enquanto sociedade.

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