Prisões políticas em plena União Europeia

Volto mais uma vez à questão catalã. porque reparo que continua a ser muito complicado a uma enorme facção da população portuguesa perceber o que está realmente em cima da mesa no que a esta problemática diz respeito.

Ao contrário do que já li num jornal nacional de grande tiragem, a independência da Catalunha não depende de estarmos ou não num mundo ideal. Depende, isto sim, da actuação de líderes políticos que sejam responsáveis e procurem fazer as coisas como deve ser. E isto é válido tanto para o lado espanhol como para o lado catalão, ou não tivessem Mariano Rajoy e Carles Puigdemont feito o impossível para que o actual processo de independência da Catalunha corresse muito mal.

Já aqui o disse em artigos anteriores (e repito) que a solução do problema catalão passa, exclusivamente, pela realização de um referendo oficial, sendo que Madrid e Barcelona se vinculariam ao resultado do dito fosse este qual fosse. E não, não é preciso um mundo ideal para que tal seja uma realidade. Basta que os políticos ajam com responsabilidade, até porque não é com o adiar da questão (eleições de 21 de Dezembro na Catalunha) e internacionalização do problema catalão que se resolve a contenda.

Contudo, nada disto me impede de criticar a postura da União Europeia em todo este processo.

No passado dia 1 de Outubro do corrente ano cível, o Governo central de Espanha ordena cargas policiais arbitrárias e brutais sobre cidadãos que fizeram aquilo que é usual em democracia (votar). No dia seguinte, as televisões europeias mostraram as forças policiais espanholas colocadas na Catalunha a provocarem os manifestantes pró-independência com atitudes típicas de uma qualquer claque violenta de futebol. Na altura, a União Europeia nada disse sobre o assunto.

A 2 de Novembro de 2017, a justiça espanhola prende e emite mandatos de captura dos actuais dirigentes da Generalitat (governo catalão) sob o pretexto de perigo de fuga, quando todos sabemos que tal não passa, tão-somente, de um manifesto e cruel acto de vingança por estes terem ousado desafiar a “pax espanhola” e uma Constituição que tem mais de 39 anos de idade. Perante tal, a União Europeia, mais uma vez, diz não ter nada a ver com aquilo que se pode muito bem apelidar de prisões políticas, dado que é um assunto do foro interno de um seu Estado-membro.

Mas afinal para que serve a União Europeia, enquanto agente internacional?

Como pode a União Europeia tomar posições muito críticas face às constantes violações dos Direitos Humanos, purgas internas e prisões políticas levadas a cabo em países como a Venezuela e Coreia do Norte (por exemplo) e, quando tal sucede num seu Estado-membro, assobia para o lado, porque no entender dos burocratas da Comissão Europeia nada disto diz respeito à União?

Prisões políticas e violência arbitrária das autoridades sobre os cidadãos europeus em plena União Europeia era algo que nunca tinha imaginado que pudesse alguma vez acontecer. Já na antiga União Soviética, cujo modelo a actual União Europeia está, nitidamente, a copiar, a conversa é outra. Depois venham-me cá com a história do mundo ideal e por aí adiante…

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