Literatura

O glamour de ser escritor

Um escritor é um parolo que vende livros. Aquela subespécie que provoca pragas frequentes em escolas e que estas repelem com uma boa dose de protocolos, burocracias e desprezo.

É o bichinho onde termina a cadeia alimentar. Alimenta as editoras, as distribuidoras e as livrarias e, no fim, morre magro, mastigado e cuspido. Vejamos como: noventa e cinco por cento dos autores pagam mais de mil e duzentos euros – digam-me se estou a ser simpática – por edições mal amanhadas. Porque a impressão a cores, porque o número de páginas, porque não garante vendas, porque os custos de distribuição – que nem sempre se verifica – porque não é atriz de novela ou comentadora de vidas alheias no programa da manhã, porque, em abono da verdade, uma vanity press não é a Santa Casa da Misericórdia.

Um escritor lembra-se de pedir apoios à sua autarquia e é, frequentemente, votado à indiferença. Tem que promover o seu livro, uma tarefa absolutamente solitária. Os amigos não gostam de ler, ou até gostam mas não gostam de poesia (ou não têm crianças na família, ou romance não é bem o género deles), ou até gostam mas não têm tido tempo e o mural deles no Facebook é coisa seleta onde não se faz publicidade. Além disso, há por aí tanto escritor, isso por acaso é profissão? Na verdade, este é o estágio em que o autor aprende sobre marketing e sobre a vida.

Entre uma cambalhota e outra, a personagem lá vai tropeçando num professor ou num pai que até se preocupa, intercede e faz o favor de aceitar um workshop de escrita criativa gratuito lá na escola dos miúdos, ou até – enlouqueça-se – a apresentação do livro infantil, que vai vender para aí uns dois exemplares. Toda a gente sabe que um escritor não nasceu para ganhar dinheiro. Nem para comer. É do conhecimento geral que os escritores passam o dia inteiro a escrever com um café e um donut ao lado do computador. Não é uma refeição cara. E para a eletricidade a gente estica um bocadinho e está feito. Eles são tão estranhos que, a bem da verdade, nem o donut devem comer.

O escritor é aquele tipo um bocado alucinado – isto confirmo – que tem uma ideia às 3:27 da manhã e não dorme mais, delira poesia enquanto adormece e saca de um bloco de notas a meio de um jantar de família. É um arrogante egocêntrico que sonha em viver da escrita: porque gosta, porque lhe dizem que tem talento, porque lhe dizem que é cultura. E vai ele e sonha… sonha em fazer sonhar, emocionar, entreter, alfabetizar. Cedo descobre que não se sobrevive com uma dieta de sonhos e que a malta se está a cagar para a cultura.

Entre um desapontamento e outro arranja tempo para escrever – gratuitamente, está claro – para projetos sem fins lucrativos. Junta-se a outras pessoas com os mesmos sonhos e empobrecem todos juntos: os mentores do projeto, que doam o tempo e a alma, outros alucinados e alguns leitores. São felizes neste casamento, mas a carreira cresce sem pecúnia.

Em breve mais um livro – porque não dois, seria um instante – que se torna um sucesso de vendas. O milagre aconteceu: em Portugal vender seis mil livros é tornar-se um caso sério de sucesso. Não há como negar, o bicho vai receber para lá de uma fortuna! Dez por cento de direitos de autor, seiscentos euros, valor acima do ordenado mínimo nacional. Esta é a retribuição de um ano – na melhor das hipóteses – de escrita diária. Se este é o primeiro sucesso de vendas e o preguiçoso pagou mil e duzentos paus pela edição não se pode queixar, afinal, o prejuízo é de apenas seiscentos euros. Mil e duzentas biscas que não chegaram para corrigir um erro ou outro na impressão do livro, mas que já alimentam o ego. Se vender os exemplares que a editora o aliciou a comprar com esses mais de mil euros, talvez consiga não ter prejuízo. E se a coisa for mesmo bem feita é capaz de ainda conseguir uns vinte paus de lucro.

Rapaz, é começares a juntar de vinte em vinte para a edição do próximo livro e para a romaria de portas fechadas no nariz. Se calhar, tira dez euros do lucro e vai ao McDonald’s buscar um hambúrguer para o caminho, que tens o estômago a roncar e de barriga cheia és mais criativo.

Lara Barradas

Vivo com os pés na terra, a cabeça na lua. As palavras correm-me nas veias, pulsantes de emoções e ansiosas por se despenharem sobre uma folha branca. Tentam, desesperadamente, definir o indefinivel: eu.

4 Comments

  1. Tão genuíno, tão de escritora!
    Ideias que se amarram em sonhos,
    Sonhos que se catalogam em páginas
    Que a bem dizer,
    Muitas vezes não passam de prosas e poesias
    Soletradas por um coração que bate pela escrita.
    Lara, tenho imenso orgulho em te conhecer, conhecer a tua escrita, a tua história. Para mim, não precisas de publicar um livro, escreve, apenas. Bjinho grande 😘

  2. Perfeitas colocações. Gostaria de sua autorização expressa para republicar seu texto, citando este link original, no blog da Clínica da Palavra. https://clinicadapalavra.com Gratidão pela perspicácia e vamos em frente, porque apesar disso, parar de escrever e publicar não é uma opção para os escritores. 😉

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