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Não voltamos a existir

No meio de um sonho, o olhar dela pesou-me no corpo. Acordei, interrompido, no escuro do quarto, a visão desabituada àquele lugar que só tinha sido meu por umas horas. Quando procurei no meio da minha cegueira, encontrei-a apenas na ponta laranja do cigarro. O ruído do fumo a sair dela, sossegado, sedutor, um convite. Semicerrei os olhos, como se isso me permitisse ver melhor. Graças a um carro lá fora consegui vê-la por um nano-segundo, sentada numa poltrona a um canto do quarto. O cabelo preto emoldurava-lhe a cara. A intensidade com que ela me observava queimava-me como se fosse a ponta daquele cigarro. E lentamente começo a distinguir as sombras.

A cara entre o véu de fumo branco que se mistura com o luar. Formas que parecem nuvens. As pequenas coisas ainda me surpreendem. O corpo nu dela. A pele escondida na ausência da luz. A curva do braço, o jeito do pulso e da mão e dos dedos que seguram o cigarro, a outra mão preparada para lhe amparar o queixo mas sem o fazer, no ar, perdida como uma peça de arte. Uma perna dobrada e outra pendurada, quase a abanar. A linha do corpo. As linhas, todas e cada uma delas.

Em cada linha consigo identificar uma dor que já não sabe partir. As dores fazem parte daquele espírito quebrado que ela insiste em carregar. Já a ouvi dizer que admirava quem conseguia adiar a tristeza para outro dia e não se preocupava com o sentido de viver. Deve ser triste esta eterna insatisfação que ela esconde nos suspiros, esta procura pelo que não conhece nem sabe o que é, esta procura por um oásis de felicidade que não existe – já não existe ou nunca existiu. Há mais no voo dos pássaros do que aquilo que ela quer aceitar. Há lógica e física, não é só magia e fado.

No escuro, comunicamos. As minhas expressões escondidas num jogo de póquer que só eu conheço. Uma sobrancelha dela muito levantada é o sinal da curiosidade. Parece-me que já só existe o olhar dela e ela não deixa o meu fugir mais. Não entendo se comunicamos um com o outro ou se cada um consigo próprio. Talvez as duas coisas. Talvez nos encontremos nos nossos solilóquios mudos, nos pensamentos que temos sobre o outro. Nenhum mexe os lábios. Só existe o olhar, o olhar, como quem toca e diz e sabe e ouve. Uma qualquer energia deixa-me às voltas naquele quarto, é agora um carrossel, um enjoo numa viagem, mas sem nunca deixar de a ver e ver e ver.

Ela desvia a atenção para apagar o cigarro num cinzeiro invisível. Quebra-se o nosso fio. De repente tudo me parece errado. De repente parece que aquela intimidade nunca aconteceu e que aquele momento foi um milagre imaginado. Levanta-se. Nua e gloriosa, abanando as ancas num convite. Levanto os lençóis e a manta para ela se deitar. Recebo o seu calor colado à minha pele despida. Nunca mais voltaremos a existir fora deste quarto.

Rosa Machado

Curiosa e fascinada pelo que não compreende, bicho dos livros e criadora compulsiva de hipóteses mirabolantes. O tempo não existe quando há conversas filosóficas sobre nada, gargalhadas dos amigos, abraços a animais, viagens pelo mundo e todo o tipo de arte.

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