Crónicas

“Não me sacudam que estou cheia de lágrimas”

Não sei por onde começar, preciso abrir a porta certa da memória para que não jorre e não volte a doer a ferida. É tão grande o que nos aconteceu que não cabe nas palavras, ainda assim tento. Falar dela pede quietude e tempo.

Detenho-me sobre a moldura retangular de onde me surge eternamente criança, pupila inquieta de quem tem fome de mundo. Conheci-a na fragilidade dos seus 7 anos e surpreendi-me com a bravura com que carregava nos ombros tanto passado. Resumo o impossível: progenitores que não reconheceram a dádiva e a atiraram para um sistema que a recebeu como pôde e como soube, a frio. Um Lar para crianças e jovens em risco selou o encontro.

Foram muitas as crianças a dar-me a mão naqueles anos, a dela ficou. Como todas as que o sistema acolhe, tinha feridas, algumas ainda em carne viva. Fui testemunhando a sua infância, Sábado após Sábado, ano após ano, abraço após abraço. Cruzamos o Tejo vezes sem conta para que pudesse passar o dia no meu mundo, leia-se na minha casa. Uma noite ficou.

Chovia, depois chovia mais, depois temporal. Nunca vi os olhos dela brilharem tanto, num misto de alegria e ansiedade. Eles pareciam adivinhar as recomendações dos especialistas que se seguiram, desaconselhavam estradas, muito menos pontes sobre o Tejo. O telefonema foi feito e do outro lado da linha a confirmação: “Ok, ela pode ficar”. Foi a primeira vez que ficou, vestiu um pijama meu que lhe sobrava e raras vezes a vi tão feliz. Eu feliz com ela.

Madrugada, a casa silenciosa e ela dormindo ao meu lado. Conto-lhe a respiração, escuto a cadência e guardo tudo. A serenidade com que repousa a alma é a confirmação do milagre que nos aconteceu.

Conhecemo-nos pelo avesso, que é a única forma de conhecer verdadeiramente alguém. Criamos pequenos rituais, códigos só nossos, rimos e choramos juntas, eu que julgava ter desaprendido a lágrima. Com ela aprendi tanto. Ensinou-me que se pode ter o coração a céu aberto e emprestou-me a sua infância para que eu pudesse crescer.

Fui-nos munindo de memórias, porque suspeitei sempre que a vírgula entre nós chegaria… e chegou. No início, custaram-me mais os Sábados, tornaram-se enormes e vagarosos no espanto renovado da sua ausência.

Quê de ti para lá da menina que me devolve a moldura? Que tens feito com os anos longe da sombra dos meus olhos? Tens exercitado as asas? O que em ti ficou de nós?

Estamos longe e doem-me as memórias. Certa vez pediste-me que fosse a tua mãe. Nunca me tinham feito um pedido tão grande. Não me sacudam…

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Telma Santos

Licenciada em Direito e apaixonada pela comunicação. Entendo que o olhar para o mundo e para a actualidade deve ser feito, sempre que possível, por dentro.

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