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E o sol brilha sempre

Uma música qualquer não me sai da cabeça, canto sozinha e sinto-me feliz, sem razão nenhuma. Se podemos sentir-nos tristes sem motivo, porque não sentirmo-nos felizes sem motivo também?

O meu marido estranha. Observa-me. “Em que é que estás a pensar?”

Em nada, em tudo. Não lhe respondo; tapo os olhos do sol para o ver melhor, fecho um olho e sorrio. Misteriosamente. Dizem que devemos tentar ser misteriosos até ao fim, certo? Romantismo, encanto, essas coisas. Toco na minha barriga de seis meses e bebo mais um pouco do sumo de morango que pedi. A rua está cheia de animais felizes, e observo os velhotes em bancos, a namorar, alguns vestidos como se estivesse um frio de rachar, muito quietos ao sol, e eu de manga cava. Pergunto-me se a idade traz, junto com as rugas e as artroses, o frio constante na pele, nos ossos, na memória.

O meu marido de óculos de sol, a olhar para a praia. Sentado na cadeira como se estivesse de férias. Observa, sente a brisa do mar, o barulho da felicidade. É quarta à tarde e decidimos não esperar até sexta para ser felizes. Ele bebe um gole da sua cerveja, faz o som refrescante de quem está satisfeito e sorri. Sorrio de volta. Sou feliz.

A consciência às vezes volta. Aquele burburinho irritante que não nos larga o canto do cérebro, escondido para atacar quando nos sentimos finalmente livres. Com raiva, bebo o sumo todo, como se isso adiantasse de algo. Pouso o copo com estrondo na mesa, o meu marido olha-me um segundo mas distrai-se de novo no segundo a seguir com um frisbee, um riso de bebé, ou um grito numa língua estrangeira. Quero a sensação de bem-estar de volta, ainda há um minuto estava zen e agora sinto-me irritada. Malditas hormonas! Maldito cérebro! Isto é de ser mulher, sei-o bem; o meu marido não se concentra nesses sentimentos pequenos que nada importam. Dar às coisas o valor que elas têm, não mais.

Sinto um arrepio em que evito pensar, não me quero perder nessas sensações que não me trazem bem-estar. Luto com o meu cérebro para me sentir abençoada de novo, para não me perder nestes pensamentos que não me levam a lado nenhum. Novo mantra: tomar decisões para ser feliz. Penso no futuro, no futuro do nosso filho, dos nossos filhos – virão mais, fomos os dois filhos únicos e sabemos a importância de ter um irmão. Respiro. E o sol brilha, cheira a Primavera, a Verão, a calor. Sente-se tudo mais leve, tudo melhor. Porque é que será que o clima nos influencia tanto? De repente parece que os pés não tocam o chão, que a cabeça está como que constantemente embriagada de felicidade. Não cabe mais em nós o peso das bagagens, que não conseguimos aguentar mais o toque das memórias más, que puxam para baixo, e sabemos que temos de seguir em frente, de despir essas peles que não nos servem mais. De tomar decisões para sermos felizes.

Rosa Machado

Curiosa e fascinada pelo que não compreende, bicho dos livros e criadora compulsiva de hipóteses mirabolantes. O tempo não existe quando há conversas filosóficas sobre nada, gargalhadas dos amigos, abraços a animais, viagens pelo mundo e todo o tipo de arte.

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