Caminhar apresenta inúmeras vantagens e uma delas e despertar os sentidos. Saí na paragem anterior e deixei ir os pés como se tivessem vida própria. Os cenários são radiosos e tudo acontece com a mais pura naturalidade.
O chão tem pedras de cores diferentes e os desenhos cuidados há muito que se desencontraram. Por cada buraco no solo, o remendo é criativo e assustador. Perdeu-se a noção de estética e de rigor que, agora é visto, como algo de muito negativo. Pisar pedras nada tem a ver com apreciar uma arte que se perde todos os dias.
Uma janela bem perto dos olhos acena-me com vagar. É cedo. Os meus pés estancam. Algo de muito terno se avista e apuro os olhos como se fosse ainda mais míope. Uma caturra canta junto ao vidro. Está solta, sem gaiola. Fazemos uma espécie de bailado tolo e ela abana a cabeça. Tão graciosa e engraçada. Tem uma divisão só para ela.
Subitamente chega um periquito. Participa no nosso baile e abre as asas. Sente-se alegria pelo contacto, mesmo que haja um vidro de permeio. Diz qualquer coisa que não entendo e toco no vidro. Aproximam-se e tentam chegar a mim. Que momento fofo e querido. Como é que nunca reparei neles? Pois, passo de metro. As coisas que se perdem.
Continuo e junto a outra janela está um homem de camisa de flanela. No parapeito dois pombos trocam impressões sobre o quotidiano. Já não via o homem há muito tempo. Desconheço se os pombos serão os que vi anteriormente. Talvez não. Hoje odeiam-se estas aves. Há uma ligação interessante que não se perde e que se cativa. Recordo a raposa e o principezinho.
A chuva decide dar um ar da sua graça. Cai leve, ainda sem jeito. Um pingo aqui e outro ali. O chapéu de chuva não quer abrir. Paciência. A chuva é a bênção da terra e dos alimentos. Parou. Talvez se tenha envergonhado. Continuo. Duas mulheres jovens passeiam cães. Dois deles são velhos e têm dificuldade em andar. Contam-me que foram recolhidos da rua e são gratos pelo tecto.
Reconheço o maior. Era um cão muito desempoeirado e sabia conquistar todos. A velhice tirou-o da vida errante e ofereceu-lhe calor humano mais especializado. Não se parece importar. Faço-lhe uma festa e digo o nome. Olha para mim admirado. Temos um passado de conversas quando a juventude o levava até ao cais e me acompanha nas fotografias. Talvez se lembre.
Já nem vou usar o transporte. Quero caminhar. Olho e vejo muitos jovens que exercem a sua adolescência em pleno. De máscaras penduradas nas orelhas, assemelham-se a seres particularmente estranhos. São alegres e insultam-se com graça e infantilidade. Palhaço e patego ainda estão de boa saúde. Desço uma escada e deparo-me com a biblioteca. Há quanto tempo não aqui vinha?
Entro e troco dois dedos de conversa com a senhora da recepção. Simpática. Reconheceu-me. Uma querida. Subo mais escadas. Sala de leitura. Sento-me. Abro o caderno e escrevo. A vida é isto, reinventada todos os dias e cheia de cor e som. Respiro fundo. Estou viva e sinto a minha vela acesa. Que bom é viver!