Em pleno século XXI ninguém mais fala em colónias ou de povos em África que ainda não se autogovernem, pelo facto de tal ser inimaginável. A era atual da liberdade parece afirmar isso e o mapa político o demonstra aparentemente. Contudo, um olhar mais atento revela uma realidade muito diferente.
A partilha de África ficou legitimada pela Conferência de Berlim, na qual as potências europeias dividiram entre si um continente inteiro. A justificação prendia-se com a necessidade de trazer à civilização e ao progresso povos que ainda não tinham “evoluído”. O que seria um motivo “nobre” acabou por ser um desenfreado saque de recursos e submissão de povos aos interesses europeus. A necessidade de educação e “elevação” do “estado primitivo” foi alinhada com as necessidades que os colonizadores europeus precisavam ter resolvidas. Por outras palavras: educação e progresso apenas e só na medida em que não colocava em causa a colonização e permitisse dotar os colonizados sob controle.
O povo saharaui habita o noroeste de África ocidental, fazendo parte do Magrebe, juntamente com países como Marrocos, Argélia, Tunísia, Líbia e Mauritânia. Trata-se de uma região que teve a colonização espanhola legitimada na Conferência de Berlim até à Resolução 1514[1] da Assembleia Geral das Nações Unidas que inicia um período de pressão para que Espanha descolonize este povo. Afinal, não era território de ninguém quando as armas espanholas ali foram erguidas.
Pese embora a colonização africana ter sido justificada com a necessidade de levar o progresso aos povos que ainda estavam a caminho da civilização, a verdade é que aquela região estava tão dotada de infraestruturas como no início da colonização: incipiente e insuficiente. Tudo apontava para a tão esperada autodeterminação até que as tropas de Marrocos e Mauritânia, autorizadas pelos Acordos de Madrid, ocuparam o lugar do antigo colono e procuraram subjugar este povo recorrendo a bombardeamentos e colonatos (a Marcha Verde marroquina é disto exemplo).
A guerra dispersou este povo entre campos de refugiados na Argélia ou na Mauritânia (que foi derrotada pela Frente Polisario em 1979) até aos momentos de hoje. Numa época em que arcaísmos como a colonização se esperavam ultrapassados, ainda é uma realidade não muito distante de nós. Não precisamos olhar para o Próximo Oriente para nações como a Palestina ou o povo curdo. Bastam 585,08km para separarem o Algarve de um país colonizador.
Por outro lado, a promessa da realização de um referendo que permita escutar a vontade deste povo, tem sido constantemente adiada desde 1991. Há um interesse em que o povo não se pronuncie quando se sabe que o que tem a dizer é contra o interesse do colonizador.
A República Árabe Saharaui Democrática, proclamada em fevereiro de 1976, membro da União Africana desde 1984 e reconhecida por 88 países, não tem controlo sobre o seu próprio território por conta dos muros, 20 000km de arame farpado, milhões de minas, cerca de 160 mil militares e 160 postos de artilharia de Marrocos. O seu Governo está no exílio e não na capital do território que tem o direito de governar e o povo está condenado a viver, não em lares como nós, mas em campos de refugiados ou em localidades remotas.
A esperança de serem escutados é ocultada por não se realizarem os referendos prometidos. Enquanto isso, a comunidade internacional silencia-se, como acontece em outras geografias.
O povo saharaui é, ainda, testemunha do que significa viver como uma colónia e, apesar de reconhecida, é-lhe negada a liberdade. A mesma que reivindicamos para nós e sem a qual não imaginamos viver.
[1] Também conhecida como Declaration on the Granting of Independence to Colonial Countries and Peoples