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A Expressar é que a gente se entende

Ofensas e Insultos Alentejanos

Os Alentejanos são um povo peculiar, conhecidos por muitas coisas: pela folga (sesta), pelo seu talento para a cozinha, pelos seus trajes e… pelo seu léxico. Para mim, de entre todas as expressões tão próprias deste povo, destacam-se aquelas que surgem como insultos. Sugiro estas cinco ofensas alentejanas muito criativas e divertidas para o uso diário.

Sempre existiu, ao sul do Tejo, uma capacidade inventiva extraordinária presente nas pessoas para criar expressões e palavras. As palavras nascem assim, através da necessidade. Com a necessidade de expressar sentimentos, passar informações, educar e repreender criaram-se verdadeiras pérolas do léxico alentejano que agora podem ser usadas para nos entreter, mas também para “puxar as orelhas”, “mangar” (zombar) ou chatear alguém, quando preciso, claro.

Aqui fica um Top 5 escolhido com todo o carinho…

#5 “És grande patego/a!” – esta “amável” expressão é usada para descrever alguém sem grande habilidade. Aquela pessoa que parece deixar sempre tudo numa bagunça. Aquela pessoa que, embora se esforce, não é capaz de fazer algo bem, ou então que trapaça. Pelo sim, pelo não, não deixe um patego pegar no seu telefone perto de uma piscina ou não lhe peça para temperar a salada!

Provavelmente refere-se a alguém que tem umas mãos desastrosas (“patas” grandes e sem grande jeito).

#4 “Não se dá lambido…” – refere-se a alguém que está em mau estado, que perdeu o rumo à sua vida, que não sabe a quantas anda, que vive no caos e desorganização, à mercê de esmolas ou então que está extremamente embriagado ou doente.

Já tinha sentido a necessidade de descrever assim o estado de alguém? A partir de hoje, pode começar a usar esta expressão que nasceu da forma como os animais tratam a sua higiene ou cuidam das suas feridas, lambendo-se…

#3 “Andas acabranado?” – andar acabranado é estar com mau humor, estar irrequieto, farto ou deprimido e fazer a vida negra a todos os outros. A pessoa acabranada é aquela pessoa deprimida que se vinga em cima de todas as outras. É óbvio que o mau génio pode ser criado por outras situações ou outras pessoas, mas, quando se descarrega sobre quem não tem culpa das nossas desventuras, merecemos que nos digam isto!

São muitos os termos alentejanos que invocam o gado caprino. Isto acontece devido ao temperamento peculiar das cabras – as cabras têm uma personalidade muito própria: comem o que querem, quando querem, saltam, pisam, correm e dão marradas.

Tornaram-se, assim, a metáfora ideal para muitos comportamentos apresentados pelas pessoas, muitos bastante afiados e menos divertidos… Esses deixamos de parte por agora.

#2 “Tás sempre pregando nelas!” – Pregar (dizer)… mentiras! Esta expressão usa-se para dizer que alguém é muito mentiroso, que relata a verdade com uma certa distorção. No meio ambiente alentejano, é frequente que se encontre uma ou duas pessoas que gostam de contar os eventos à sua maneira, por vezes, sem malícia, apenas porque não conseguem passar sem mentir, outras vezes porque querem contar feitos e aventuras que surpreendam os seus amigos e conhecidos.

Não é de estranhar que se entre numa taberna alentejana e se oiça que, no ano passado, choveu tanto que a água chegava aos joelhos, quando na verdade o volume foi um pouco mais modesto… ou que se pescou um peixe com três quilos, quando apenas tinha um e meio… que se presenciou tal sessão de pancadaria que voaram homens pela janela!

#1 “Devias levar com um gato morto nas ventas até que ele miasse!” – O melhor para o fim… aquela injúria que se guarda para os casmurros, para os malcriados, para os trapaceiros da pior espécie, para os malvados! Esta frase diz-se, quando a paciência se esgotou, quando os argumentos não bastam, quando a discussão é escusada. Quando já não existe esperança, existe esta frase que invoca uma tortura física “levar uma bofetada com um gato morto na face” eterna “até que ele mie”!

Sim, sabemos que existe polémica e, claro, nenhum gato será utilizado dessa forma, pois Alentejano verdadeiro respeita a dignidade dos animais! No entanto, apenas esta frase pode resumir sucintamente o desconforto causado pelo verdadeiro idiota.

Serão de alguma utilidade estas expressões, para usar no dia-a-dia com conta, peso e medida. Um presente para aqueles que mais precisarem, relembrando que a riqueza do léxico é uma bênção pois quanto mais soubermos, melhor nos expressamos e… a expressar é que a gente se entende!

Assim é, no Alentejo.

André Afonso

Nasci em '95 em Serpa, Alentejo e, por isso, gosto das coisas que se alargam e duram como as searas e vivo bem a brandura quente do sol de Verão ou o rigor do frio de Janeiro. Sou Agrónomo, mas um pouco mais do que isso - gosto de investigar a cultura destas gentes, seja a música ou as excelentes mil maneiras de aproveitar utilizar Pão na cozinha!

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