Desencontro – Parte II

“Olá.”

A sua voz era fininha. Suave, macia, cuidadora. Interrompeu-me os pensamentos. Olhei para trás. Conhecia-lhe a cara, era uma rapariga que apanhava o mesmo metro que eu, já a tinha visto algumas vezes, mais uma entre tantos que éramos a caminho do trabalho, da escola, de casa, da vida. A rapariga do metro olhava para mim com uns grandes olhos e a morder o lábio inferior.

“Olá” respondi. O que queria ela?

Sorriu. Pegou-me no braço e afastou-me da linha.

“Não tens medo?”

Encolhi os ombros. Não sabia o que responder. Não ia contar a minha vida a uma estranha. E ela mal sabia o medo que tinha, a quantidade de medo que me assolava o corpo naquele instante.

“Eu morro de medo,” disse-me ela, a sorrir.

Eu também, pensei.

E naquele momento soube. Soube que não era só a rapariga do metro que morria de medo. Eu soube que ela, ela também estava a morrer de medo. Não era só eu. Não era só eu que tinha medo, que estava perdido e injustiçado, a sentir que as horas me levavam ao fim. Não era só eu que existia no mundo.

E de repente senti-me tão envergonhado que tive de sair dali. Eu era um cobarde.

Corri em direcção às escadas, subindo-as de duas em duas, de três em três, quase caindo. Saí e fui a correr para casa. O mais depressa que pude. Os pulmões doíam-me. Tinha de deixar de fumar. Sentia-me tão envergonhado e cobarde com os meus pensamentos e a minha atitude que tive vontade de me bater. Nem queria acreditar que tinha pensado nisso. Nem queria acreditar que tinha pensado em atirar-me para a linha do metro, matar-me – sim, matar-me, matar-me, morrer! Desaparecer para sempre, fugir, fugir para sempre e deixá-la. Deixá-la sozinha.

Tive vontade de me bater e dei um murro a um caixote de lixo. Esfolei a pele, e pensei que merecia isso tudo e mais, merecia ficar sem os dedos, pela minha cobardia. Merecia que me doesse tudo, por ter sequer pensado em deixá-la.

Que cobarde que era. Que egocêntrico.

Entrei em casa sem fôlego, com medo que ela também tivesse pensado igual. Com medo que ela também tivesse tanto medo quanto eu e que tivesse pensado igual, que a vida não valia nada, que ninguém a podia salvar. Chamei-a.

Ela estava no quarto, a chorar. Olhou para mim, com a esperança perdida, com os olhos inchados de chorar, com o cabelo despenteado. Era linda. Como é que eu poderia ter sequer pensado deixá-la? Deixá-la sofrer sozinha?

Por momentos senti-me eternamente agradecido à rapariga do metro, que me tinha feito ver o medo. Que me tinha lembrado que havia mais alguém no mundo em quem pensar. Aquela desconhecida, com uma conversa sem sentido, tinha-me dado sentido de novo.

Eu era tão parvo. Tão egocêntrico e cobarde e absolutamente parvo, que me doía a raiva, de tão grande e absoluta que era.

“Amor” disse à minha mulher, abraçando-a, e essa palavra nunca tinha sido tão pesada e verdadeira na minha língua e na minha verdade. “Amor, eu estou aqui. Desculpa. Desculpa. Eu sei que vamos conseguir superar.”

Share this article
Shareable URL
Prev Post

Figuras históricas e os seus exóticos animais de estimação (conclusão)

Next Post

A Última Publicidade de Mad Men

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

Read next

DUFFY – Mercy

A cantora galesa Duffy, detentora de um timbre de voz único, desapareceu do meio artístico sem deixar rasto! Não…

Sou fumo

Era um crepúsculo de primavera chuvosa, as luzes amarelas das janelas espelhavam-se nos passeios e estradas…

Acabou o Verão

“Vamos comprar o material, Afonso.” Foi assim que a mãe lhe anunciou que o Verão tinha acabado e iam voltar à…