a tall grass field with a fence in the background

Uma seara de dez anos

Faço este ano dezassete anos – ano mágico da entrada para a universidade, dos últimos tempos na terra natal. Determino que “Este ano não vou parar, nem um segundo!” Corro de ensaio para ensaio em peças de teatro, concertos com a banda filarmónica, o desporto escolar… E, claro, começo a experimentar a vida alentejana adulta. A estar na taberna, beber um copo de vinho e cantar uma moda! Fazia dezassete anos mais cem vezes, se me deixassem embarcar uma e outra vez nessa barca de oportunidades em que tudo é expectativa e sonho. Ah!

É importante lembrar que num país secular como é Portugal o tempo anda de mãos dadas com a saudade e com a nostalgia, o que faz essa maravilhosa alquimia na qual nos transformamos nas nossas tradições, nas nossas raízes, nas pequenas coisas que, no fundo, nos tornam únicos.

Sendo assim, e porque sou português e alentejano, sempre vivi num agora cheio de coisas do passado, que perduram ou apenas se lembram – tradições, dizeres e pensares, rotinas e preceitos. E por essa razão, aos dezassete eu já compreendia e amava tanto esta terra, estas gentes, como quem tenta proteger os grãos de areia que um a um se perdem no vento e no mar. Sabendo que o Tempo leva muitas coisas.

Quando eu tinha dezassete anos em torno de mim havia vida, vida amarela. Vida das searas baixas do trigo que dançavam ao vento, doiradas ao cair do sol num postal idílico. Nesta imagem não podem faltar sobreiros e casas caiadas, onde entre elas se ergue um castelo e a torre da igreja que toca ritmada o compasso das horas certas. Nesta imagem não pode faltar uma e outra oliveira, uma e outra parreira e os animais que nos assustam quando estamos a andar de bicicleta – grandes vacas de cor castanha-avermelhada!

Quando eu tinha dezassete anos tinha muitos sonhos, mas tinha um receio: “E se acaba aqui? Se os meus amigos vão embora para outras bandas estudar e não voltam mais? E se eu me vou embora e não volto?” E entristecia-me saber o porquê.

A verdade é que não existia muito que nos prendesse. Aqueles que quisessem uma carreira ligada às ciências iriam para Lisboa, Aveiro ou Porto. Quem, porventura, quisesse seguir desporto iria para onde fosse preciso. Quem quisesse seguir a via das artes viria para Coimbra ou Lisboa, naturalmente… Isto preocupava-nos e abateu-se sobre nós o sentimento tenebroso.

O sentimento tenebroso é aquele que nos diz que a pequena bolha onde vivemos e crescemos vai rebentar. Crescemos rodeados de serras e quilómetros de calma, rodeados de gentes conhecidas e cândidas, protegidos de tudo o que pertence ao mundo por parecer tão distante. Parte e à parte do mundo.

Passado um ano, muitos foram. Poucos voltaram, mas eu – por ser ligado à terra e à tradição – fiquei e fui ficando sem abalar.

Por ficar vi brotar água da terra, como um milagre. Milhares de bocas de rega espalhadas pelos lugares onde outrora ela escasseava! E esta água mudou as cores ao Alentejo, de amarelo para verde muito vivo, ora mais escuro ora mais claro – em hectares e hectares de olival nos pintámos, em lagares e bodegas fizemos o melhor azeite do mundo. Crescendo a cada ano, tanto em área como em produção, o Alentejo passou de celeiro de Portugal a bodegueiro, enólogo, produtor de amêndoa e de tantos outros produtos certificados.

Fomos buscar aquilo que melhor sabemos fazer e criámos: queijos únicos, enchidos maravilhosos, um lanche, um almoço e um repasto. Reinventámos a slow living e engrenámos-lhe a segunda mudança, passou a ser menos slow. Mas… mais living?

A verdade é que os meus amigos continuaram a fugir, sem voltar por não haver oportunidades. E cada vez mais aqueles amigos, velhos amigos de chapéu preto e camisa aos quadrados, iam também para parte incerta deixando saudades. Os bancos dos jardins ficaram vazios aos poucos e, numa tentativa de reanimar tudo tentámos chamar visitantes. (Tarefa árdua pois estabelecimentos e ideias fecundam e perecem. Os empreendedores não têm mercado regular e o cliente regular tem menos dinheiro, regularmente, que todos os outros.)

Tomando proveito do mundo digital, demos a conhecer as nossas riquezas, publicitámos as nossas possibilidades e aventuras. Fizemos das herdades destinos e da história antiga algo a redescobrir. Fizemos feiras medievais que reavivam a memória muçulmana e romana e eventos culturais de fazer inveja às grandes metrópoles.

A pouco e pouco fomos conquistando clientes que procuram esta paciência, este estar descansado. E durante dez anos vi a seara passar a postal, passar a um bonito “.jpg” para pregar no Facebook e no Instagram.

Ganhámos hotéis e festivais de Verão. Ganhámos centros-comerciais…

Continuámos a perder pessoas e com as pessoas identidade, o maior risco de todos é gentrificar uma região inteira! Felizmente o Alentejo é contagioso e, hoje ainda se pode ir a uma das poucas tabernas abertas e cantar livremente. Pode-se comer pão fresco com queijo e apanhar uma grande calma em Agosto!

Há dois anos escrevia um artigo sobre o código do lenço alentejano, e só por isso provava que o Alentejo sempre irá viver dentro do peito de alguém que lá cresceu ou passou. Há dois anos via com outros olhos a minha terra – agora de carros elétricos guarnecida, agora de aeroporto enfeitada e de autoestrada acabada. Há dois anos via tudo da janela… um isolamento que imitava o isolamento constante que ainda existe nos montes e serras sem estrada, sem luz, sem água, sem vida. Onde as estevas crescem (e bem!) e as abelhas fazem mel, quase sem ninguém para o aproveitar.

Há um ano também eu me vim embora. E deixei a pacatez por esta cidade grande e sem paciência. Ainda me estou a acostumar e ainda tenho tão viva a imagem da seara doirada dos meus dezassete e desse medo de partir e não mais voltar.

Olhemos, pois, para o agora e o agora dos vinte e sete dita que se aproveite as oportunidades! Dez anos volvidos dita que se volte a olhar as flores da primavera alentejana, ou as castanhas a bailar no lume do inverno. As praias de Porto-Côvo e o canto do rouxinol à sombra de um chaparro. Demos tudo isto ao mundo e esperamos que o mundo nos acolha e dê valor, num dualismo eterno: guardar este segredo para si ou partilhá-lo com todos? Muitas habilidades tem o povo alentejano – desde pastor a influenciador (que é mais ou menos o mesmo) – mas a mais bonita delas todas é a de sonhar: sonhar com o regresso para uma grande jantarada, bem regada e cantada, mas por ventura agora enquanto se vê os aviões descolar de Beja, com peças feitas em Évora e ilustres passageiros oriundos de Vidigueira que, tal como Vasco da Gama, vão calcorrear o mundo a falar de investimentos, industria e de como é bom viver docemente à sombra da azinheira, ainda mais agora que as escolas estão renovadas e os hospitais têm médicos!

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