woman in brown coat reading book in library

Somos o que lemos

Lembras-te quando começaste a ler? Provavelmente quando um adulto te pegou ao colo e leu-te um livro em voz alta. Nos primeiros anos de vida, é assim que nos iniciamos à leitura: através da voz dos outros. Aprendemos sons, palavras, imagens, ideias — tudo graças à leitura partilhada.

Com o tempo, tornamo-nos leitores por conta própria. Evoluímos, criamos referências próprias, descobrimos emoções — as nossas e as das personagens. A cada leitura, o cérebro entra numa espécie de caça ao tesouro: reconhece palavras, recupera memórias, estabelece ligações inesperadas. Por isso, um livro nunca é o mesmo quando o voltamos a ler. Não é um circuito fechado. Um livro vive, cresce connosco, muda conforme mudamos.

Ler nunca é um ato solitário no verdadeiro sentido da palavra: é, sempre, um diálogo entre o texto e o leitor. E como cada leitor está em constante mudança, cada leitura é única. Um livro pode ser relido anos depois e revelar significados totalmente novos. Não porque o texto mudou, mas porque nós mudámos.

Mesmo os livros que nos desiludem, que abandonamos ou que rejeitamos, têm algo a dizer. Talvez não sobre o mundo exterior, mas sobre nós. Funcionam como espelhos: revelam os nossos gostos, os nossos limites, as nossas expectativas. Isso, também, é leitura crítica — no melhor sentido.

Talvez seja por isso que gostamos tanto de colecionar citações. Aquela frase de um autor célebre, aquele parágrafo sublinhado, aquela ideia que fica — tudo isso serve para explicar quem somos, onde estamos ou com o que nos identificamos. Numa citação, reconhecemo-nos.

Ler é um exercício de atenção. Exige que silenciemos por momentos os nossos próprios pensamentos, as urgências do dia, os preconceitos que nos acompanham. Para escutar verdadeiramente um livro — e quem o escreveu — é preciso abrir espaço dentro de nós à empatia. Assim, perguntar a alguém o que está a ler é, no fundo, perguntar muito mais: “Quem és tu? O que te inquieta? O que procuras perceber ou sentir?”. Porque os livros que escolhemos falam de nós e da nossa relação com o que nos rodeia. Um livro abre-nos novos horizontes e pode transformar-nos.

Nós somos o que lemos.

Nota: Este artigo foi escrito segundo o novo acordo ortográfico.

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