Destacamento Blood

Em junho deste 2020, tão insano, foi lançado o filme Da 5 Bloods (bra: Destacamento Blood; prt: Da 5 Bloods: Irmãos de Armas).

Filme fundamental do excelente Spike Lee, diretor de tantas outras obras extraordinárias como, Faça a Coisa Certa (Do the Right Thing), Malcolm X e Infiltrado na Klan (BlacKklansman), este ganhador do Oscar de melhor roteiro adaptado.

Digo que Destacamento Blood é fundamental, porque traz uma visão sobre a Guerra do Vietnã ainda não explorada e você pode até pensar, mais um filme sobre esta guerra, sim. E esta versão mostra-se muito necessária.

Antes de entrar no filme, vale destacar que Spike Lee tem uma carreira longeva na indústria cinematográfica de Hollywood, mas os estúdios não se animaram pela produção e este ousado projeto teve sua estreia na Netflix. Ousadia acompanhada de ironia são marcas do diretor que sempre retratou as relações afetivas tendo, em sua maioria, a Cidade de Nova York como palco.

Outro ponto a destacar, é o Vietnã, um país incrível, terrivelmente arrasado pela guerra, que já foi disputado e colonizado por outras nações, passou por atrocidades, tem um Povo forte que não se entrega, muito ao contrário, se reergueu, tornando-se uma economia de destaque, dono de lindas paisagens, alegria, beleza e uma maravilhosa culinária.

Voltando ao filme, destacamento Blood discorre sobre o retorno de quatro afro-americanos ao Vietnã, os veteranos soldados passam por aventuras inverossímeis em busca pelos restos mortais de seu companheiro e líder, morto em combate, mas não se engane,  tem um outro fato motivador para levar os Bloods ao país que foi palco de várias atrocidades, barras de ouro, que ficaram enterradas e perdidas durante uma das muitas batalhas com os vietnamitas.

O filme é longo, 156 minutos que trazem alguns equívocos no roteiro, que também é carregado de arquivos de época, os discursos de Martin Luther King JR e de Robert F. Kennedy estão presentes, além das falas de Angela Davis e Muhammad Ali. Claro que tudo isso se alinha com o contexto atual vivido em todo continente americano, principalmente nos EUA onde questões de preconceitos e racismo são sempre frequentes, algo que parece não ter fim, desde a escravidão  até movimentos como Black Lives Matter.

São vários personagens, recheado de momentos cômicos, faz referência a outros filmes desta guerra, por exemplo quando citam e dão risadas de películas com Sylvester Stallone em Rambo e Chuck Norris em Braddock,  mas na sua maior parte é levado a sério e é até pesado.

Outra clara evidência vai para Apocalypse Now, 1979, de Francis Ford Coppola, este influência para vários filmes que vieram depois. Em momento inusitado, aparece até uma boate com o nome do filme de Coppola, segundo Lee, o lugar é real.

O ótimo ator inglês Delroy Lindo é um dos veteranos, sua personagem, Paul, é cheia de conflitos e sofrimentos, cheio de paranoias, eleitor de Donald Trump, rivaliza constantemente em discussões com seus colegas de pelotão. Nessas loucuras de Paul, os debates vão se intensificando, números e estatísticas são colocados a mesa, por exemplo a enorme quantidade de soldados Negros convocados, mas que raramente ou quase nunca são lembrados pela própria indústria cinematográfica, mídia ou jornais de várias linhas, a população de afro-americanos nos EUA é em torno de 11%, no Vietnã eles representavam mais de 32% dos convocados. As piores missões em condições surreais, eram destinadas a esses soldados.

Não tenho dúvida das melhores intenções de Lee ao retratar essa história, mas “Destacamento Blood” trata pouco desse que foi o maior desastre militar dos EUA. Ouso dizer que ainda falte um filme para explorar esse absurdo com mais veemência, tema que é mais uma das manchas deste país no canário Mundial. A ferida ainda está aberta.

A excelente trilha sonora conta com o saudoso Marvin Gaye que sempre utiliza da suavidade e maestria para falar de violência. Além de Delroy o elenco conta com Jean Reno e Chadwick Boseman (Pantera Negra) falecido há pouco tempo.

Vale assistir Destacamento Blood?

Sim, vale muito, mesmo não achando um dos melhores deste ícone diretor americano, vejo que é um dos projetos mais ousados desde Malcon X.

Spike Lee se faz cada vez mais necessário e sua obra também.

Nota: este artigo foi escrito seguindo as regras do Português do Brasil.
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