Quando a insolvência bate à porta da empresa onde trabalhas

Às vezes as histórias não têm finais felizes. Nos contos infantis, por maior que seja a intempérie, a maldade ou o ladrão, o final é sempre feliz, mas os contos infantis não nos preparam para a vida profissional.

Na vida ativa, vulgo adulta, descobrimos que afinal muitas vezes o fim é só um fim. E as organizações, independentemente da longevidade, da dimensão, ou do histórico, também têm fim.

Numa organização o fim acontece com um palavrão:

Insolvência

Uma organização entra em insolvência quando os rendimentos que tem não suportam as despesas e os pagamentos a terceiros. A partir do momento em que uma organização demonstre não ter capacidade para cumprir com as suas obrigações vencidas, os gerentes ou administradores, têm a obrigação legal de apresentar no Tribunal Judicial a respetiva organização para insolvência.

Todos conhecemos organizações em processo de insolvência, e entrar em insolvência implica uma série de passos burocráticos e tanto maiores e morosos quanto maior a organização e a cidade em que está inscrita a respetiva sede da organização.

Quando comecei este texto, era com o objetivo de simplificar a linguagem difícil que se usa nestes processos, mas palavras como: administrador de insolvência, credores, massa insolvente, privilégios creditóriosFundo de Garantia Salarial, insolvência culposa, insolvência fortuita, e outras que tais, não têm sinónimos entendíveis e práticos. Para os que querem saber mais, para além dos advogados, existem uma série de sítios on-line que descrevem todos os passos do processo de insolvência em que até ficamos a saber tudo sobre o processo, mas que em nada descrevem o processo social e individual a que os trabalhadores de uma organização pré e insolvente são sujeitos.

Antes da declaração da insolvência, na maioria dos casos, existe um período de limbo em que cada trabalhador decide individualmente e autonomamente “vestir a camisola”. “Vestir a camisola” de uma organização implica um bocadinho mais do que usar a t-shirt do nosso clube favorito no dia em que ele ganha.  “Vestir a camisola” implica sacrificarmos o corpo, investir o sangue e conviver com o suor resultante do sacrifício durante algum tempo.

Trabalhar numa organização no período pré-insolvência é conviver com uma doença fatal, mas prolongada. Começa no início do mês, com uma pequena picadela que nos dá quando consultamos o saldo bancário e verificamos que ainda não recebemos o salário, mas não identificamos outros sintomas e como estamos muito ocupados a fazer outras coisas adiamos a ida ao médico e a pergunta: o que é que se passa? Passados mais uns dias começam-se a ver amontoados de cochichos no corredor e na sala do café, descobres que os atarefados afinal não têm assim tanto para fazer e começas a fazer perguntas para as quais não obténs respostas. Começas a não ter também respostas para dar. Fazes um esforço, pensas que amanhã a dor vai passar, tomas um “Ben-u-Ron” e um banho quente e ocupas-te com os assuntos sérios e urgentes que tens para resolver na tua função e estrutura direta. Um novo dia, os burburinhos passam a chorinhos, cada vez descobres mais atarefados que afinal não fazem nada e como paras-te para respirar apercebes-te que a picadela agora já é uma ferida aberta e então queixas-te alto, tão alto, que até é o médico que te procura, mas que em vez de aumentar a dose de paliativos para te amenizar as dores, dá-te um apertão para te fazer sangrar.

Quando isto acontece, qualquer trabalhador despe a camisola, mesmo sem ter outra por baixo. Os mecanismos da Segurança Social garantem medidas de apoio aos trabalhadores, após o terceiro mês consecutivo, ou mais, sem estes receberem o respetivo salário. Mas despir a camisola não encerra o processo.

Para quem “despe” ou ainda “veste a camisola”, a insolvência é a morte atraiçoada de um ente querido, independentemente do nível de hierarquia que se tenha ou dos anos de casa, implica um desgaste emocional e um processo de luto. E o processo de luto implica passar pela fase da negação, em que não se consegue aceitar a perda e recusa-se a acreditar no que aconteceu. Pela raiva, em que se procuram culpados, pela negociação, em que se reage à procura de alternativas como se não tivesse acontecido nada. Pela depressão, quando se percebe que nada será como dantes. E, finalmente, pela aceitação: quando se deixa de sentir amargura, angústia e negação, e se reencontra a tranquilidade e o equilíbrio profissional.

Nesta nova estruturação do mercado de trabalho, em que um trabalho já não é para toda a vida, nem em que um contrato é um compromisso ético e moral de garantir a retribuição pelo trabalho adiantado, o término de uma relação profissional pode abrir muitas janelas, mas para quem trabalhou sempre na mesma instituição, contribuiu para que esta  crescesse como se fosse parte de si é um  revés que nem todos conseguem ultrapassar de ânimo leve.

Uma organização sustenta-se em compromissos e expetativas bidirecionais entre responsáveis e trabalhadores. Quando uma organização entra em insolvência é porque esta cadeia foi infrutífera pelas partes envolvidas, e existe pelo menos um ou vários culpados, estejam eles conscientes ou inconscientes disso.

Para os trabalhadores não existe, ainda, um Fundo de Garantia Emocional a que recorrer para recuperar pelo menos parte da remuneração emocional pendente num processo de pré-insolvência e insolvência de uma organização, mas ultrapassado o luto, no final de todos os túneis há sempre um início.

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