Mariana, a força à esquerda

Mariana Mortágua, a menina-prodígio do BE, ganhou o seu lugar na Assembleia da República sob protestos internos, uma vez que não seria a substituta directa de Ana Drago, mas cedo ultrapassou as quezílias internas e chamou a atenção de todos os portugueses. Não pela sua voz esganiçada e estridente, mas pelo seu discurso simples e assertivo. Mariana Rodrigues Mortágua e a sua irmã gémea, Joana Mortágua também ela deputada do BE, nasceram em 24 de Junho de 1986 em Alvito. Mariana é licenciada e mestre em Economia. Segundo o BE, foi a necessidade de terem um deputado com conhecimentos profundos de economia que pesou na escolha de Mariana para o assento parlamentar.

Quando a apelidamos de menina-prodígio, não estamos apenas a pensar nos interrogatórios da Comissão Parlamentar a Ricardo Salgado e Zeinal Bava, embora este seja só por si um bom argumento. Apenas com 22 anos, Mariana escreveu o livro A Dívidura: Portugal na crise do Euro (lançado em Março de 2012 pela Bertrand Editora) em conjunto com Francisco Louçã, com quem diz ter “uma relação muito equilibrada e de igual para igual”. Um ano mais tarde publicam nova obra, Isto é um assalto: A história da dívida em banda desenhada, com ilustração de Nuno Saraiva. Hoje com 30 anos tem mais 4 obras publicadas: Temos de Pagar a Dívida com Miguel Cardina, Nuno Serra e José Soeiro; Não acredite em tudo o que pensa também em parceria com Francisco Louçã; A Europa à Beira do Abismo com Tony Phillips, Roberto Lavagna, Christina Laskaridis, Anzhela Knyazeva, Diana Knyazeva e Joseph Stiglitz; e Privataria: Quem ganha e quem perde com as privatizações em Portugal com Jorge Costa.

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A política e, principalmente, o activismo sempre estiveram presentes na sua vida, uma vez que o seu pai, Camilo Mortágua, foi um dos membros fundadores e operacional da LUAR (Liga de Unidade e Acção Revolucionária). LUAR foi um movimento armado de oposição ao Estado Novo um pouco diferente dos outros, uma vez que os seus membros não tinham qualquer militância política e recusavam por completo o terrorismo enquanto forma de luta. Embora, a percepção de uma criança sobre este tipo de assuntos seja muito diferente quando se torna adulta, Mariana continua hoje a não classificar as acções em que o pai esteve envolvido como violentas, uma vez que o objectivo nunca foi matar, mas sim criar uma abertura na sociedade portuguesa. Até “as armas utilizadas eram de plástico” disse Mariana numa entrevista dada ao Jornal Expresso.

Enquanto adolescente, pertenceu à AJP (Associação Jovem para a Justiça e Paz), onde iniciou o seu percurso activista pelos direitos das mulheres e da comunidade LGBT. Já a sua formação política foi adquirida no Bloco de Esquerda, onde acredita ter liberdade para intervir e construir uma alternativa credível ao sistema instalado.

Considera-se uma pessoa de esquerda, pacifista e pela liberdade. É analítica, tem “pouca capacidade de resistência ao erro” e não desiste facilmente, porque acredita que podemos sempre mudar e melhorar o nosso mundo, a nossa sociedade. Assume-se como anticapitalista. Porém, aceita um sistema capitalista com circulação regulada de capitais, pois dois dos principais problemas estariam eliminados: a fuga de capitais e os movimentos especulativos face a outras moedas. Claro está que seria o fim do mercado comum, mas a história recente mostra que a fase em que o capital se movia de acordo com regras estabelecidas foi a mais próspera do sistema. Dá que pensar! Assim como considera que as desigualdades salariais e o aumento da dívida não se podem continuar a ignorar, enquanto temos como objectivos únicos o aumento da produção e a competitividade. Não vale a pena produzir mais se não existe procura, até porque o simples aumento da produção desvaloriza o produto num mercado contraído. É preciso atacar seriamente a questão salarial e a lei do trabalho. Não é justo termos uma sociedade onde pessoas que trabalham continuam a viver no limiar da pobreza e sem perspectivas de futuro.

Porque também eu sou de esquerda e da geração Y, termino com uma nota pessoal no rescaldo da eleição de Trump. Hoje é urgente definirmos o que queremos do futuro enquanto País, mas acima de tudo enquanto sociedade. Como queremos que a história fale de nós? O caminho vale a pena ser feito se formos juntos e se crescermos de forma sustentável. Se insistirmos em continuar com a política do Medo, da Austeridade, da Tecnocracia e do Capital vamos acordar um dia e tudo o que tínhamos como garantido desapareceu e aí talvez nem dois 25 de Abril nos salvem!

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