O que é a cultura «woke»? Segundo o dicionário inglês Oxford, no qual o termo entrou em 2017, significa «estar consciente sobre temas sociais e políticos, especialmente o racismo»[1]
Contudo, este conceito tem já uma história anterior e, conhecendo-a, permitirá enquadrar adequadamente a perspetiva social e cultural que lhe é atribuída e o seu progresso para o mundo da política contemporânea.
A utilização deste termo surgiu nos Estados Unidos da América, na comunidade afro-americana, com o sentido original de “estar alerta para a injustiça racial”. Os especialistas em estudos afro-americanos indicam o escritor William Melvin Kelley (1937-2017) como o criador desta ideia, utilizando como base desta tese o artigo escrito pelo autor no jornal The New York Times, em 1962, com o título If you’re woke, you dig it. Obviamente que o enquadramento mais lato se prende com o movimento de luta pelos direitos civis e pelo ativismo das décadas de 60 e 70.
Na última década o conceito «woke» ressurgiu com muita força através do movimento Black Lives Matter, criado para denunciar a brutalidade policial contra as pessoas afrodescendentes. No entanto, ultrapassou a fonteira da comunidade afro-americana e tem sido também utilizado pelo movimento #MeToo, contra o assédio e a agressão sexual.
Em termos políticos ser «woke» significa enquadrar-se na família política de esquerda e apoiante de políticas liberais. Entre os temas defendidos encontram-se as ideias de igualdade sobretudo racial, mas também social onde podemos incluir a igualdade de género, o feminismo, o movimento LGBTQIA+, a aceitação da riqueza do multiculturalismo, a defesa do ativismo ecológico e de ideias no campo da saúde como a vacinação e o direito ao aborto.
Nos Estados Unidos da América a situação intensificou-se a partir de 2020 nos debates presenciais entre Biden e Trump. Com a eleição de Biden em 2021 a polarização de posições entre democratas (onde supostamente existe uma ala «woke») e republicanos (conservadores) ao invés de acalmar, agudizou-se. De facto, um dos grandes críticos à cultura «woke» é o presidente norte-americano Donald Trump[2] e as várias medidas políticas desde o início do seu mandato em 2025 são indício disso mesmo. Basta pensarmos que cercas 200 palavras foram banidas pelo governo do atual presidente. A título de exemplo citamos algumas dessas palavras: LGBTQ, racismo, diversidade, igualdade e discriminação, e expressões como discurso de ódio e apropriação cultural.
Em Portugal, por sua vez, foi já anunciado pelo executivo liderado pelo primeiro-ministro Luís Montenegro, que o programa curricular da disciplina de Cidadania e Desenvolvimento sofrerá uma reformulação profunda. Note-se que a disciplina é ministrada aos alunos do ensino obrigatório, isto é, desde o ensino primário ao secundário, com o objetivo de proporcionar ferramentas para a formação de cidadãos responsáveis, autónomos e com sentido democrático.[3]

Os defensores do «wokismo» bradam aos céus afirmando que os valores basilares da sociedade e da democracia ocidental estão a ser duramente atacados. Sublinham que existe um crescimento exponencial da extrema-direita e que os valores conquistados e dados como adquiridos estão a sofrer duros e consecutivos golpes. Por outro lado, os conservadores defendem a existência de uma onda de lavagem cerebral e de ensino de ideologia de género patrocinada pela esquerda política e, por esse motivo, aproximam-se cada vez mais das políticas de extrema-direita.
A sociedade está, de facto, a polarizar-se? Existe uma esquerda radical ou os ultraconservadores confundem a ideia de liberalismo das ideias com libertinagem? A conjuntura está a ser exacerbada ou, na realidade, os valores «woke» estão de alguma forma presentes no mundo moderno ocidental desde a Revolução Francesa, cuja bandeira foram os valores de Liberdade, Igualdade, Fraternidade? A sociedade contemporânea conheceu uma evolução dos conceitos abrangidos por cada um desses valores? Será errado equacionar a igualdade de direitos plena, ou vivemos numa sociedade tão obcecada pelo dinheiro e pelo sucesso que já não conseguimos olhar para os valores base e considerar que, sendo a base, devem ser garantidos a toda a população? Perdemos toda a humanidade e empatia?
Sem dúvida que não é um assunto de resposta fácil e linear. São muitas as questões para refletir antes de uma tomada de posição. Contudo, que seja claro como água que esta é muito mais do que uma questão cultural e política, é uma questão de humanidade que definirá a sociedade que queremos deixar para as gerações futuras.
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Nota: este artigo foi escrito seguindo as regras do Novo Acordo Ortográfico.
[1] Informação consultada em https://www.bbc.com/portuguese/articles/cy4y82w737do
[2] Segundo a reportagem de Silke Wünsch publicada no jornal brasileiro DW a 12.03.2023
[3] Para informações complementares sobre a disciplina de Cidadania e Desenvolvimento consultar o programa oficial ainda em vigor em https://www.dge.mec.pt/sites/default/files/Curriculo/Aprendizagens_Essenciais/cidadania_e_desenvolvimento.pdf