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E se eu morrer amanhã?

Tomei a liberdade de tomar emprestado o título do último livro da Filipa Fonseca Silva para vos falar de um tema sobre o qual ninguém quer falar. Morte é palavra proibida, como se a finitude não fosse uma certeza.

Tenho um amigo que diz, “até prova em contrário, sou imortal. Sendo que a morte ainda não me aconteceu, não tenho porque não pensar que talvez nunca chegue”. Acredito ter sido esta a forma que ele arranjou para lidar com a coisa. Ao invés de se deter a pensar no quando e no como, opta pelo se. E assim vai vivendo os seus dias, confiante na possibilidade da eternidade, não deixando de aproveitar cada novo dia.

Não fosse o ridículo da situação, uma vez que a morte é, para todos os seres vivos, uma certeza científica, poderíamos até criar um “movimento dos crentes na vida terrena eterna”. Uma espécie de seita, mas apenas com bons propósitos.

Facto: a morte um dia vai bater-nos à porta e nós não teremos como não a deixar entrar.

Dúvida: quando? E é aí que reside a angústia. Aliás, a angústia resulta quase sempre da incerteza. Uma terrível verdade pode bem ser um acto de caridade.

Num cenário utópico, imaginemos poder saber o dia em que vamos morrer. Ocorrem-me duas perguntas. Primeira pergunta: quereríamos saber? Segunda pergunta: o que faríamos com essa informação?

Tramado, não é? Eu sei.

Respondo-vos sem qualquer dúvida à primeira. Não. Não quereria saber o dia em que vou morrer. Porque isso iria limitar-me. De uma maneira ou de outra. E se fosse num tempo tão próximo que pusesse em causa todos os projectos que tenho em mãos, sem oportunidade de os concretizar? E se fosse num tempo tão longínquo que significasse que antes de mim tantos dos que amo morreriam e me visse condenada a viver sem eles durante muito tempo?

Mas deixemos de lado a minha escolha. É altura de o pôr a si, leitor, a pensar na vida. Sim, na vida, porque a questão está no que fazemos com a vida, já que quanto à morte não podemos fazer nada.

O que faria o leitor sabendo que amanhã seria o seu último dia entre os vivos?

Arrisco algumas teorias.

Os românticos iriam abraçar e beijar todos os que amam e desejar que um dia, numa outra realidade, se pudessem voltar a juntar.

Os crentes correriam a confessar-se. Nada de arriscar a entrada no Reino dos Céus sem os pecados perdoados (ou pior, verem a sua entrada barrada e serem remetidos para as catacumbas da eternidade).

Os preocupados com o que possam pensar deles, correriam a saldar as dívidas, assegurando que para memória futura ficaria a sua integridade.

Podia continuar partindo de valores mais ou menos universais, mas o princípio é este: todas as opções são válidas. Todas, menos uma. A insistência em esperar que chegue a notícia do fim do mundo, do nosso, pelo menos, para decidirmos fazer o que nos é mais importante. Insistimos em viver como o meu amigo, que acarreta a esperança de ser imortal, e deixamos para depois tudo a que deveríamos dar atenção agora.

Não é um defeito meu, nem seu, nem do meu amigo, é um defeito comum à maioria dos seres humanos. E estou em crer que é um defeito que decorre do facto de não queremos pensar que, um dia, vamos mesmo morrer. Como se ao termos ainda muitas coisas para fazer, sítios onde ir, projetos a concluir, nos fosse permitido prolongar o tempo de vida disponível. E vamos adiando. Como quem diz, “nã!, o destino não me iria deixar ir embora antes de fazer tudo a que me propus”.  A má notícia, é que vai acontecer. A menos que morramos velhinhos, tão velhinhos (ou tão deprimidos, o que é ainda pior), que já não reste vontade para fazer nada. Sem sonhos, sem perspectivas, sem objectivos. E não deve haver nada pior do que morrer assim. Pior só morrer cheio de saúde, Deus nos livre!

Partilho da perspectiva da Helena, a personagem do livro de que vos falei no início deste texto. A Helena é uma mulher de 79 anos, que decidiu agarrar a vida. Inclusive, decidiu ser chegada a hora de viver a sua sexualidade em pleno (outro gigante tabu!).

A pergunta, e se eu morrer amanhã?, pode ter o sentido que lhe quisermos dar. Para a Helena, e para mim, significa que o que há a fazer é aproveitar o dia de hoje, porque o amanhã pode nunca chegar.

E para si?

*Corpo Desnudo e a Roupa no Estendal é uma rubrica quinzenal sobre quem somos. Sozinhos e uns com os outros. Despidos e expostos. Na porta de casa, e a roupa estendida no fundo do quintal.

Nota: este artigo foi escrito seguindo as regras do Antigo Acordo Ortográfico

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Comments 1
  1. Sem dúvida vivee, aproveitar, pois a verdade é mesmo esta: “a vida é isto, aqui e agora!” 😉 Não é cliché, pois a verdadeira vida é aquela que acontece entre planos e projectos e não nas conquistas dos mesmos!😘

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