Viagens de Trabalho

Na infância, invejava o meu pai sempre que ele saia em trabalho: Inglaterra, Espanha, França ou Suíça eram destinos recorrentes, polvilhados pelas feiras que aqui e ali, iam enriquecendo o seu currículo: Monterrey, Amesterdão, Norfolk – Virginia, etc…

Invejava-o e sentia a sua ausência, mas gostava da expectativa do regresso… e do presente que sempre trazia, fosse um chocolate comprado à pressa no aeroporto enquanto aguardava pelo voo de regresso, fosse uma cassete de música – The Very Best of The Bee Gees, So Far So Good e o pináculo desses anos: ABBA Gold, de 92, ajudaram a moldar de forma permanente o meu gosto musical.

Nunca tive um trabalho que me levasse a viajar para fora com a frequência com que ele então o fazia (num ano chegou a ir quinze vezes a Madrid!) mas saio duas ou três vezes por ano, com Londres e Madrid à cabeça, mas também Munique, Zurique e Bermudas a deixarem no mapa os pionéses da conquista do globo.

Numa viagem de trabalho não é tudo mau nem é tudo bom, mas seguramente está longe de ser o passeio idílico em que eu imaginava o meu pai quando era mais novo. 

Aspectos positivos: os hotéis e os restaurantes são normalmente melhores do que aqueles em que fico ou onde como quando viajo em lazer; além disso, amiúde é possível visitar algo do destino em que fico – muito amiúde; por fim, temos a oportunidade de conversar com colegas de trabalho num contexto diferente, conhecer um pouco do outro lado da vida, da rotina, despir o fato e convivermos noutros trajes.

Aspectos negativos: reunião atrás de reunião, jantar atrás de jantar, almoço volante, tirar notas para ficar com um registo que mais tarde formará a base de uma qualquer negociação, o trabalho habitual transforma-se numa torrente de entulho que entope a caixa de e-mail, sendo preciso dar vazão nos intervalos dos compromissos e por vezes no silêncio do quarto de hotel após o jantar; e conhecer muito pouco dos destinos onde, com um orgulho provinciano, apregoamos já ter estado: na realidade, não estivemos, apenas passámos por lá.

Em Zurique, estreei-me a andar de mota quando liguei ao Chico, amigo de escola que lá mora, e ele levou-me num passeio nocturno de vinte minutos pelo centro da cidade, depois do jantar, espaços que de outra forma eu perderia, visto estarmos circunscritos a uns arrabaldes semi-industriais/administrativos. Em Munique chegámos de manhã para partir ao fim do dia, com a perspectiva de 3 horas livres para conhecer a Marienplatz, plano abortado por uma chuvada que nos levou a enfiar toda a tarde numa cervejaria refundida do centro. Bermudas: o tempo que eventualmente teríamos para conhecer a ilha cedo percebemos transformar-se num desperdício por haver pouco para ver e menos ainda para fazer.

Contudo, o que mais levo de uma viagem de trabalho, é a diferença entre eu, que parto, e quem fica: não sentimos a ausência do mesmo jeito pelo ritmo em que nos movemos quando estamos fora e, contudo, ao chegar, apercebemo-nos do bom que é regressar, ou melhor, do bom que é termos um lugar onde voltar, reconhecê-lo como a nossa terra, a nossa casa. Talvez seja um paradoxo, mas o ambiente frenético em que nos movemos lá fora ajuda-nos a disfarçar a ausência e a valorizar o regresso.

Poucas vezes trago lembranças nestas viagens e, por isso, as cassetes que o meu pai nos trazia são ouro que brilha na minha memória (é só aí, na memória, que elas existem). Hoje invejo-o de uma forma diferente: pela experiência que uma viagem profissional proporciona e não pelo passeio que eu então idealizava.

PS: Na última saída a Londres vimos o Juventus-Benfica na Casa do Benfica de Londres. Nunca havia entrado numa casa do Maior de Portugal, e andar por Little Portugal, zona sui-generis da capital britânica (basta ver no mapa o tipo de estabelecimentos que pululam ali à volta) foi uma experiência. Poderia falar do aspecto da cozinha (sobre o WC não entrei: contaram-me), mas esse foi o ponto alto da última viagem de trabalho (o Benfica ganhou). Por vezes é possível não ser só trabalho!

[Este texto não está escrito segundo o novo acordo ortográfico]

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