Short Videos — a nova Era

Tudo começou em 2005, com a primeira plataforma criada para assistirmos a vídeos, mais uma forma de nos ligarmos uns aos outros de forma pacífica, até que escalou todo o seu potencial para o que é hoje.

Contam-se momentos, cantam-se canções, ensina-se a fazer algo, informa-se e desinforma-se. Uma ideia genial, de facto, mas tal como tudo o que tem o seu lado bom, o lado mau também acaba por aparecer.

Há cerca de 25 anos assistíamos, exclusivamente pela televisão, a histórias que permitissem ser passadas e bem pagas, claro. Atualmente, a existência de plataformas que partilham vídeos é excessiva e está fora de controlo.

A nova febre, os Short videos, veio para ficar.

E o que são, afinal, estes Short videos, questionam-se vocês.

«Shorts são vídeos curtos, geralmente gravados na vertical e com duração entre 15 segundos e 3 minutos.»

Estes vídeos são exibidos exclusivamente para prender a atenção do público num ambiente de exposição imediata ao conteúdo. É um pouco como o puré instantâneo: dá menos trabalho a fazer e é mais simples de digerir no estômago. O dinamismo que oferecem abraça o consumismo desenfreado de material criado para nos entreter; há quem veja uma ideia genial e há quem discorde inteiramente da sua utilidade.

Basta ter uma história e esmiuçá-la até cansar, até entranhar na zona de conforto de que o nosso cérebro precisa, estupidamente, para sobreviver nos tempos que correm.

Temos grandes empresas a passar para o live-action e as micros a reaquecer histórias já contadas uma e outra vez, mudam os atores, mudam os cenários, mudam algumas palavras do guião, mas a base é a mesma.

O CEO, o homem mais poderoso do mundo, a mulher em desespero, ou, então, para outros gostos, o macho alfa e a amante renegada, a rica e a pobre, o filho perdido. Vou ficar por aqui nestes exemplos enternecedores de histórias muitíssimo originais, que continuam a gerar dinheiro e, até lá, as histórias originais ficam a nadar por aí, à deriva e a aguardar uma oportunidade.

A publicidade arrasta estas várias plataformas e aplicações, capta a atenção da audiência com seis minutos de vídeo seguidos, até ao ponto em que o viewer sente a necessidade de seguir a história até ao fim, mesmo que seja algo totalmente previsível.

Clica-se então no link, abre-se a App Store e instala-se a aplicação. Abrimos, então, o dito filme que estávamos a assistir por entre anúncios para repararmos que são múltiplos frames entre um e dois minutos cada. Fazemos scroll até chegarmos ao último que vimos, e são necessárias as chamadas coins ou os tickets para aceder ao próximo minuto e por aí adiante.

Claro que a cantiga não poderia ficar por aí — por termos acedido, recebemos umas migalhas; depois, por partilhar com alguém, recebemos mais uma porção; por assistirmos a publicidade e perdermos o mesmo tempo em que iríamos assistir ao próximo episódio, outro tanto cai na conta; esgotam-se as hipóteses e vem, então, a tão aclamada subscrição. Claro que não vimos nem 10% da história. Para terminar, forçam a aceder a uma subscrição, que pode ser semanal, mensal ou até anual, e, nessa altura, é possível assistir a todos os filmes e ter todas as regalias.

Faz parte do charme do negócio.

Se existem alternativas? Claro que sim.

Se todos têm paciência para procurar? Depende de cada cabeça.

Por muita evolução que o ser humano tenha, há coisas que não mudam, e uma delas é a necessidade de se sentir em casa, de fabricar serotonina imediatamente. A era digital oferece muito, de facto, o preço dela é a nossa dependência. Para as pessoas que não têm muito tempo para ler, ou talvez até nem gostem, ter aquela história que já sabemos como vai acabar, e o que pode acontecer, é uma almofada desprovida de pensamento crítico.

Vivemos hiperestimulados e, no fim, só queremos algo que nos tire da nossa realidade e nos dê o contentamento da possibilidade de sonhar.

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Comments 4
  1. Concordo em pleno, infelizmente ja me debati por muitas vezes com esses falsos anúncios de filmes ou livros os chamados reels que depois de muitas etapas acabas por nao ler nada ou entao pagas, o avanço da internet e das redes sociais e excelente sem duvida mudou muitas vidas, mas com 2 vertentes uma parte boa e a outra parte a negra que estragou muitas vidas, com isto tudo quem ganha e se diverte apenas os do topo da piramide que ganham a vida independentemente se a tua vida melhorou ou ate terminou a conta da internet. Infelizmente pode ser explorada para grandes ajudas e crescimento ou explorada para enganar, extorquir e ate ceifar vidas, nao existe meio termo nesta realidade que nao e real

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