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Ratazanas.

Cruzou os braços, as unhas deslizavam para cima e para baixo, para a esquerda e para a direita, entre o ombro e o cotovelo. A força aumentava a cada resvalo, arranhou-os de sobremaneira. Andava de um lado para o outro, em descontrolo, inquieta. Sacudia a cabeça, roçava os dentes no lábio inferior, freneticamente. Perdeu este, brevemente, a cor para empolar assim que os incisivos lhe deram descanso. Abençoada libertação. Lábio quente, ignorado. Coçou a cabeça, cerrou os punhos ­- finalmente aliviou os braços. Inspirou fundo, uma e outra vez. Quanto mais inspirava mais cólera nascia. Soava a primitivo: a respiração que fomenta o autodomínio a servir de acendalha ao descontrolo.

– Pareces um animal – não ocorreu à amizade dizer-lhe outra coisa. Imprevisível não seria o bicho ao qual estabelecia comparação, senão não lhe tinha isto saltado boca fora que o medo controla.

– Que faço eu com esta estirpe com a qual não sei lidar?

– Aprendes. Deixas estar. Será tanto melhor para ti como para esses pobres braços. Essas tuas unhas são por esta altura alcofas de epiderme, suponho.

– Nunca te sai dessa boca nada que preste?

A amizade encolheu os ombros em confirmação: assim parece.

– Até quando tenho eu de deixar estar? A mim ninguém me ensinou isto, disto, estas coisas…

– E que te ensinaram?

Aproximou-se o animal, meteu as mãos atrás das costas, sinal de quem não premedita um ataque físico. O fascinante poder das mãos atrás do corpo. Oh, e aqui vamos nós, poder escarrado com o corpo colocado numa posição vulnerável, sem os punhos adiante, de quem vai sem eles, mas com tudo o resto. Homem que se algema a ele mesmo é de quem se sabe pela honra. De quem não precisa dos punhos. Inflamou o peito, encostou-lhe a testa, olhou-lhe os olhos, engoliu-a por dentro. De olhos arregalados e narinas escancaradas, respondeu-lhe.

– Cresci onde não se pariam oportunidades, onde não se conhecia outra arte sem ser a de rua, negligenciada já se sabe. Metade dos que partilharam tempo comigo estão encarcerados, merecidamente à luz dos delitos, outros tantos mortos… por alguém ou por eles mesmos. Alguns perderam-se, nunca saberão fazer nascer oportunidades, correr atrás, um dia e outro. Nem todos conseguem chegar às ferramentas, nem todos sabem onde estão. Nem sempre se consegue quando se nasce sem bússola. Aprendi a dissociar-me, a fragilidade ficou num sítio inacessível. Onde cresci, não havia grande espaço para fraqueza, mas não havia disto: ratazanas com corpos de gente. Esta estirpe que está a tomar conta do mundo. Naquele lugar, aproximavas-te e olhavas assim, nos olhos. Encaravas… o que fosse. Só te tinhas a ti, a bem dizer. Existe honra no conflito, sabias? Caráter! Que importa se as conversas atingem um tom de voz acima se existem argumentos? Assim, de testa colada para que os olhos vejam a resposta.

– Crês isso saudável?

– Fala-me então da saúde dos ataques calados. Das movimentações nos bastidores. Fala-me dos ataques de hoje pelas telas brancas, das ameaças em texto, dos insultos. Fala-me desta estirpe que na rua baixa a cabeça e torna a esquina para não te encontrar. Fala-me dos ataques em silêncio, do online de quem está offline na linha da frente. Da monstruosidade da falsidade, do esperar para tirar o tapete quando viras costas. Fala-me destas ratazanas.

– Que podes tu fazer, se existem? Veneno não podes sair largando, que é isso pertencer à mesma estirpe. Apresentares-te diante não te serve, se se escondem. Que podes tu fazer se ficas sem ter a quem encostar a testa?

– Que posso eu fazer se continuo a acreditar num mundo onde diz muito quem se apresenta em diante?

– Com as mãos atrás das costas, como tu?

– Evidente, não nos queiramos bárbaros. Apresentemo-nos com nossos olhos, nosso poder argumentativo e nossa verdade. Essa deverá ser a força do Homem. Como se sobrevive a um mundo que nada apresenta além do ímpeto da maldade?

– Com silêncio. Sobrevives.

– E as palavras que me estão na goela? Degolar-me-ão, não vês?

– Argumentarias contra quem, diz-me? Que sabem as ratazanas de argumentos?

Desencostou, finalmente, a testa. Libertou os braços atrás das costas, baixou a cabeça e suspirou um sorriso. Abraçou-a.

– Obrigada. Parece que te saiu qualquer coisa que preste.

– Sabes que quererei para sempre esse abraço?

– Ai sim? Que tem este de diferente?

– O saber que me abraça quem não dirá, quando eu não estiver, o que não teria coragem de dizer diante de mim. Esta estirpe que te incomoda, por não se apresentar diante, terá a vida facilitada. Movem-se como areias, onde convém. Terás de aprender a silenciar se não te quiseres igual a eles. No fundo, somos todos animais. No caso da estirpe que repugnas, comem os filhos na ausência de alimento. Interessa-lhes a sua própria sobrevivência. E assim será sempre. Liberta-te.

– Escolhes-me um animal bonito?

– Já escolhi, o que vai além da sobrevivência por temer a morte sem honra, não a morte. O que não vive no subsolo. Se bem te conheço perguntas-te como se defende o animal que te escolhi: tem a inteligência de saber que, mesmo que fosse capaz de as tirar do subsolo, não falarão a mesma língua. Dá-lhes silêncio. Bem, é importante rugir de quando em vez, só para os lembrar que não se teme a estirpe, que podem encontrar o rugir na luz, com as mãos atrás das costas e os olhos adiante para a mais temida das batalhas: as conversas afastadas dos ecrãs.

 

Que animal és?

Gabriela Pacheco

Licenciada em Ciências da Educação e Formação. É Gestora de Desenvolvimento e Formação. Tem Certificado de Competências Pedagógicas, Certificação Internacional em Practitioner PNL – Programação Neurolinguística e curso de Graduação em Direcção Hoteleira. Escreve por inevitabilidade. Cultiva a paixão desmedida pela Arte, a Educação e a Formação naquilo que acredita ser a poção mágica para o desenvolvimento humano.

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