Cresci com as histórias sobre como eram os professores antes de 74. Eram os professores que existiam para ensinar e também para amedrontar, para criarem uma sociedade ordeira, bem-comportada, respeitadora, temente a Deus e a toda a espécie de autoridades terrenas.
Ouvia relatos de castigos físicos que iam desde o ponteiro polivalente, que servia para apontar no quadro e para assinalar as cabeças distraídas com ponteiradas, até à régua guardada na gaveta, para castigar por mais de três erros no ditado. Aprender bem na escola, diziam-me, era memorizar a história de Portugal, a geografia da nação, ter uma ortografia sem erros e saber de cor a tabuada.
E é com estas histórias na cabeça que início, nos anos 80, o ciclo primário.
Conheci professoras vindas da ditadura e que em quase nada mudaram as suas práticas. Os castigos físicos, a intolerância, o abuso do poder marcou esse ciclo primário. As aulas decorriam em cenários de medo e ansiedade.
Só no 2º ciclo deixei de ver a régua na secretária e comecei a perceber que aquelas figuras não existiam para amedrontar. As palavras ensinar e aprender ganharam novos significados.
Seguiu-se o 3º ciclo, o secundário e a universidade. E, de ciclo para ciclo, a figura do professor ganhava maior importância e, felizmente, o meu olhar sobre grande parte deles era de admiração e de exemplo a seguir.
No ensino superior, “levei” com os chamados “professores doutores”, os inacessíveis, que nunca souberam o meu nome e que não nos reconheciam em lado nenhum. Ainda assim, mereceram na mesma a minha admiração e foram cruciais na minha formação pessoal e social.
Tenho um número reduzido de 3 a 4 professores com quem ainda hoje mantenho contacto.
Falamos de várias coisas, raramente de conteúdos e matérias lecionadas, trocamos ideias, partilhamos histórias, mas existe do lado de cá o sentimento de respeito, de gratidão por estar na presença de alguém que vive com a missão de ensinar, de transformar, de fazer os outros pensar.
O melhor professor, na minha opinião, é o que é capaz de ver o potencial de cada aluno e de o estimular de acordo com as suas características. É o professor que não esquece que a personalidade de um ser humano é desenvolvida através da autoconfiança e do respeito por si próprio. Ensinar é uma das atividades mais nobres a ser desempenhada pelo ser humano. Aqueles que dedicam a sua vida a essa notável incumbência possuem um tesouro eterno e absolutamente glorioso.
É com alguma preocupação que vejo o sistema de educação em Portugal. A profissão está desvalorizada, nas escolas circulam professores desmotivados, tristes, frustrados, deprimidos, porque antes de serem professores também são filhos, maridos, esposas, mães e pais.
São destacados para viverem longe de casa, alguns trabalham reféns dos pais dos alunos e reféns dos conselhos pedagógicos. Cobram-lhes tudo, o ensino, a educação e a formação dos alunos.
“Educar é mais difícil do que ensinar, porque para ensinar é necessário saber, mas para educar é preciso ser.” A frase é de Joaquín Salvador Tejón, mais conhecido como Quino, o criador da famosa personagem de Banda Desenhada, “Mafalda”.
O “magíster dixit“, o único detentor da verdade e do saber, o disciplinador, o condutor, o impositor e único juiz não tem lugar na escola do futuro. Creio que nos aguarda uma crise de vocações para o ensino, os jovens têm da profissão de docente a perceção de que ela não é atrativa, não garante emprego seguro e imediato, é uma profissão desgastante e socialmente desvalorizada e desacreditada.
A formação de professores para o séc. XXI precisa de conceder aos professores mais experientes um papel central na formação dos mais jovens, dedicar atenção especial às dimensões pessoais e trabalhar a capacidade de relação e comunicação que define o tato pedagógico, valorizar o trabalho em equipa e o exercício coletivo da profissão. É uma missão de vida marcada por um princípio de responsabilidade social que assenta na comunicação e a participação no espaço público das comunidades.
Termino com as palavras de Rubem Azevedo Alves. Psicanalista, educador, teólogo, escritor e pastor presbiteriano brasileiro. É considerado um dos principais pedagogos brasileiros da história do Brasil, junto com Paulo Freire, um dos fundadores da Teologia da Libertação.
Há escolas que são gaiolas e há escolas que são asas. Escolas que são gaiolas existem para que os pássaros desaprendam a arte do voo. Pássaros engaiolados são pássaros sob controle. Engaiolados, o seu dono pode levá-los para onde quiser. Pássaros engaiolados sempre têm um dono. Deixaram de ser pássaros. Porque a essência dos pássaros é o voo.
Escolas que são asas não amam pássaros engaiolados. O que elas amam são pássaros em voo. Existem para dar aos pássaros coragem para voar. Ensinar o voo, isso elas não podem fazer, porque o voo já nasce dentro dos pássaros. O voo não pode ser ensinado. Só pode ser encorajado.
– Rubem Alves