Sociedade

O que nos leva a quer destruir a sociedade que construímos?

Há uns dias, o meu avô chegou preocupado, tinha lido uma notícia sobre a existência de estudos que estimam o desaparecimento de insetos como vespas, borboletas, abelhas e escaravelhos dentro de 100 anos.

O meu avô cresceu rodeado destes insetos e sem tecnologia. Viveu sempre norteado pelo que a terra lhe dava. Trabalhou desde miúdo e lembra-se que durante a segunda guerra mundial, os habitantes da aldeia se reuniam na entrada da varanda do senhor para quem os seus pais trabalhavam para ouvir as notícias na única radiofonia que havia nas redondezas.

O meu avô tem quase 88 anos, foi das primeiras pessoas a ter carro na aldeia onde ainda vive e hoje em dia não dispensa o telemóvel nem o cartão multibanco e faz compras regulares e a qualquer hora num dos diversos supermercados que existem à sua volta. Embora não utilize computadores e Internet, é um curioso sobre estas ferramentas.

Conversamos muitas vezes sobre a mudança dos tempos, fascina-o a evolução, a melhoria das condições de saúde e o acesso de todos a bens, informação e conhecimento, mas a notícia do desaparecimento destes insetos abalou-o.

Para alguém de 88 anos, com a quarta classe, consciencializar-se que a forma como produzimos e consumimos nas últimas décadas tem consequências nefastas que se refletem diretamente nos elementos mais básicos e integrantes do dia-a-dia foi um choque. Questionou-me sobre a última vez que eu tinha visto uma borboleta. Foi no Verão passado, em Versalhes. E com esta resposta deambulamos por temas como as estações, a oscilação das temperaturas mínimas e máximas, a cadeia alimentar, o impacto do desaparecimento de espécies, as tempestades, os incêndios, o degelo, a poluição das linhas de água, rios e oceanos, sobre para onde vai o lixo “ensacadinho”, sobre reciclagem e reutilização, sobre excesso, sobre alimentação e sobre como cada um de nós decide o que quer saber sobre o Mundo em que quer viver.

Debater estes temas deixou-o ainda mais desconfortável, desconfiado, mas alerta.

O meu avô tem 88 anos e continua num processo constante de escolha, seleção e opção. Sente-se inocente e ao mesmo tempo culpado e refém deste paradigma do conceito económico em que a procura que gerava a oferta foi substituída pela oferta que promove a procura involuntária.

O meu avô quer que daqui a 100 anos os seus descendentes continuem a avistar vespas, borboletas, abelhas e muitos outros insetos. O que acontecer será por escolha, seleção e opção voluntaria de cada um.

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