Não é novidade nenhuma que transpomos muitas vezes para as redes sociais a lógica de relacionamento que temos “cá fora”. Inclusive, são amigos (virtuais) que temos, a par de seguidores; integramos grupos virtuais de temas que nos agradam. Fazemos parte do rol de seguidores de alguém conhecido.
O filme Matrix descrevia como as pessoas acreditavam ser verdadeira aquela realidade simulada. Mas estamos assim tão longe daquela distopia? Adicionamos pessoas que não conhecemos, apenas porque nos identificamos com as informações escolhidas e potencialmente verdadeiras, num jogo de sombras que nos faz crer existir algo entre nós e o que está “lá fora”.
No que toca às redes sociais, tirando a exótica pessoa que prossegue nesta vida sem conta criada no Facebook ou que insiste em usar um telemóvel que só faça chamadas e envie SMS’s – sim, ainda existem e fazem questão de se afirmarem deste modo –, ignorando que um telemóvel hoje é um assistente para tudo e mais alguma coisa, existem dois tipos de pessoas: os claramente a favor e os frontalmente contra. Em boa verdade, não se trata de ser-se a favor ou contra, até porque em si mesmas elas não representam nenhum problema. O problema começa quando, transportamos para a rede o pior e não o melhor de nós. Felizmente existem exceções.
Basta uma pequena visita pelo Twitter. A ausência de contato físico é bastante para se revelarem ferozes combates (virtuais) e abundarem ofensas, contra o próprio ou a familiares, por um erro ortográfico (que o infeliz corretor automático decidiu substituir) ou como uma forma de demonstrar como os outros são arrasados e exposta a sua (suposta) inferioridade intelectual. Se por cada vez que nos sentíssemos ofendidos por alguém que nunca vimos, e possivelmente nem veremos, originasse um duelo, tenho a certeza que o número de ofendidos diminuía consideravelmente.
A verdade é que as redes sociais já fazem parte do nosso quotidiano e seremos lembrados no futuro por essa habilidade: ter 700 (ou mais) amigos (um número considerável nunca encontrámos) numa determinada rede social, mas sofrer de isolamento social. Poder-se-ia acrescentar a este grupo, aqueles que sofrem a pressão do número de seguidores e na constante necessidade de produção de conteúdos. Existem, ainda, aqueles que não conseguem viver sem o telemóvel. Ou seja, se acabar a bateria, acaba o mundo, ali mesmo!
O mundo das redes sociais tem uma dinâmica própria, construída sobre um ideal-tipo imaginado. Quem pensa que se trata de uma extensão da realidade acaba por se desadequar. Seja pela pressão de ser (ser ou parecer-se?) como aquela pessoa que seguimos; seja porque assistimos a um modelo de felicidade que não tem correspondência com a realidade.
Podemos adicionar pessoas, porque gostamos delas ou porque as vemos como um modelo a seguir, mas até que ponto o que observamos no ecrã tem correspondência com a verdade? Até que ponto aqueles mochileiros que vemos a provarem todas as comidas que encontram à venda na rua conseguem fazer com que os seus estômagos aguentem impunes? A felicidade que nos querem fazer crer que têm porque são fiéis ao rígido hábito de se levantarem às 5h e continuarem produtivos até à meia-noite é verdadeira?
A rede que escolhemos estar obedece às mesmas regras que qualquer filme ou cena de teatro. Criamos um perfil que se adequa a um ideal que imaginamos e projetamos esse ideal num faz de conta que se quer dar a ideia de autêntico, em consequência seguimos quem mais se adequa a esse ideal-tipo. E seguimos nestas bolhas que os algoritmos ajudam-nos a isolar-nos até que, alheados da realidade, nos envolvemos num emaranhado de expectativas e “obrigações”. Se estou a ser vítima de uma (suposta) injustiça tenho logo que publicar nas redes sociais; se não concordo com o que aquela pessoa diz, vou bloquear aquele perfil, num ato de aniquilamento simbólico do Outro.
Nota: este artigo foi escrito seguindo as regras do Novo Acordo Ortográfico