Lembrar-se é uma forma de eternidade e a memória é presentificar o ausente. É o que José Luís Peixoto conseguiu de forma notável em Morreste-me.
Penso que quando o autor publicou este livro não tinha a noção de que seria a voz dos órfãos de pai. Cada palavra leva-nos até ao mais íntimo de nós e produz uma ressonância tal como se a dor do luto afinal tivesse tradução.
“Pai. Nunca envelheceste, e eu queria ver-te velhinho, velhinho aqui no nosso quintal, a regar as árvores, a regar as flores. Sinto tanta falta das tuas palavras. Orienta-te, rapaz. Sim. Eu oriento-me, pai. E fico. Estou. O entardecer, em vagas de luz, espraia-se na terra que te acolheu e conserva. Chora chove brilho alvura sobre mim. E oiço o eco da tua voz, da tua voz que nunca mais poderei ouvir. A tua voz calada para sempre. E, como se adormecesses, vejo-te fechar as pálpebras sobre os olhos que nunca mais abrirás. Os teus olhos fechados para sempre. E, de uma vez, deixas de respirar. Para sempre. Para nunca mais. Pai. Tudo o que te sobreviveu me agride. Pai. Nunca esquecerei.”
Sem ser deprimente, mas melancólico e bonito, Morreste-me é um diálogo entre um filho e um pai “impossivelmente morto”, uma narrativa sobre a tomada de consciência de que a luz é também escuridão, de que a morte obriga a reajustes para seguir com a vida, de que o órfão é o prolongamento do pai e de que construir boas memórias é viver para sempre. Um livro pequeno, com apenas perto de 30 páginas, mas que exige pausas durante a sua leitura, para respirar fundo, para assimilar e até mesmo para chorar. É comovente. Das coisas mais sensíveis que li sobre uma parte tão dura da minha própria vida.
Não é uma voz de revolta nem de interrogação, mas sim de rememoração e de preenchimento dos vazios deixados pela morte de um pai que deixa muita saudade. De um pai que ensinou a apreender o mundo e a senti-lo em cada simples gesto, em cada lugar singelo. Com a morte de um pai, estaremos sempre em busca das memórias para que ele não morra. Para que não nos esqueçamos de quem nos estruturou e de quem somos.
Na verdade, Morreste-me é uma reflexão sobre a finitude e a forma de conviver com a morte e com o vazio da perda. É uma homenagem à vida. É a compreensão de que a morte traz novos começos, se estivermos disponíveis para rebuscar, honrar e fazer viver quem finou. Só que agora de maneira diferente.
Nesta obra, aliás em todos os textos de José Luís Peixoto, encanta-me a honestidade nas suas palavras, como se não tivesse medo de se mostrar e de se dar.
Morreste-me é uma vida inteira. Um livro sobre o amor. A fusão entre a prosa e a poesia. O paradoxo da dor única e ao mesmo tempo universal da morte. Delicado, profundo e belo, é assim a obra de José Luís Peixoto.