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Hip-hop: mais do que música, uma cultura que educa e muda mentalidades?

Actualmente, o hip-hop é vítima de uma certa marginalização, tal como nos seus primórdios, a que se junta a imagem de produto altamente comercializável e alvo de pirataria frequente nos meios cibernéticos, estando desentendida a sua história. Nesse sentido, Quincy Jones, reconhecido compositor, à revista Fortune, afirma ter criado um projecto designado de ‘Playground Sessions’, mencionado à entrevistadora Michal Lev-Ram: “tu queres ver as crianças concentrarem-se na música em vez de lutarem entre si”; mais indica que “os americanos não sabem as fontes da sua música, desde o bebop ao doo-wop, e, até mesmo, ao hip-hop”. Tentando perceber, contudo, a sua história mais as suas dinâmicas, questione-se, assim: consegue o hip-hop educar e mudar mentalidades?

As mais recônditas origens deste género da música remontam a 1925, com um dance performer do ‘Cotton Club’, nos EUA. Este dançarino terá introduzido movimentos inovadores, muito parecidos à realidade actual, originando um estilo que se veio a designar de breakdance. Com algumas inovações e tentativas de demonstração deste tipo de sonoridade juntamente com o surgimento do conceito de Disco Jockey (DJ), Clive Campbell, mais tarde Kool Herc, anima, pela primeira vez, uma festa, ficando conhecido como o “pai do hip-hop”.

O verdadeiro nome desta corrente musical começou a consolidar-se nos anos 70, juntamente com o surgimento do rap. Entretanto, no meio de vários, Michael Jackson com novos ritmos musicais no pop e novos passos como o ‘moonwalk’ ou o ‘jam’, assim como Flo Rida ou Snoop Dogg influenciaram a maneira de ver o hip hop e “catapultam-no para as luzes da ribalta”. Pelo século XXI, nomes como Eminem, Jay-Z, Kanye West ou, mais recentemente, Nicki Minaj dão uma nova marca a este género musical. A não esquecer o facto da comunhão cultural ter existido, num circuito onde se transmitiam realidades ou onde se partilhava uma gíria, o que permitia um destaque pela diferença na sociedade em que se inseria.

Vejamos alguns casos actuais ligados a projectos que mostram como é possível contornar-se uma vertente mais lúdica com o hip-hop.

No caso português, deve ser tida como recurso uma reportagem levada a cabo pelo jornal Público, mais precisamente pelo ‘Ípsilon’. Em 2002, Vítor Belanciano intitulava-a ‘O hip-hop é a vida deles’. Conversando com D-Mars, mentor do grupo musical Irmandade, o nascimento deste tinha “o intuito de dar uma mensagem de união às novas gerações do hip-hop”. Tendo lançado o seu primeiro disco, na dita altura, nomeado de ‘Rapública’, o mesmo artista afirma, ainda: “tem a ver com a língua, com a compreensão daquilo que se diz. Existe uma identificação ao nível do imaginário. Tento que aquilo que digo faça sentido para outras pessoas”.

Pelo P3, suplemento daquele periódico, é de destacar outra reportagem, datada de 2014, da autoria de Ana Cristina Pereira, realizada no âmbito do programa radiofónico da ‘RadioActive 101’, cujo alvo são três projetos do ‘Escolhas’. Trata-se de uma iniciativa de carácter governamental, que visava, cite-se a mesma fonte, “a inclusão dos jovens”, bem como “incitar a reflectir, mas também a vencer a impaciência, a estabelecer metas de médio ou longo prazo”, em que o lema, cantado em coro, era: “Se tens educação, põe a mão no ar/com esta canção, só te queremos educar”.

Anteriormente, recorri a um pequeno relato da evolução do hip-hop. Quando tentou ser lançada a questão cultural, foi feito com o intuito de trazer aqui um tópico para discussão. Desta forma, reutilize-se a pergunta introdutória deste artigo: consegue o hip hop educar e mudar mentalidades? Para este efeito, atente-se em dois casos: o gangsta rap e o battle rap.

Foco noticioso do mundo do rap e do hip-hop, o websiteabout.entertainment’ aponta por volta de 1983 a época em que o rapper Ice T foi o pioneiro no estilo gangsta rap. No mesmo sítio, pode ler-se que “o gangsta rap circula em torno de letras de teor agressivo e batidas trunk-heavy” e que “reflecte estilos de vida violentos e de jovens carenciados do meio urbano”. Devido a uma certa agressividade musical, as condenações começavam a tornar-se frequentes, pois “os rappers defendiam-se, frequentemente, dizendo que descreviam as suas vivências e não que as promoviam”. Com batidas comerciais, passou a ganhar um estatuto de relevância no mercado, com o cantor Notorious B.I.G e o seu produtor Puff Daddy, tendência que ganhou ainda mais importância com o suceder dos anos.

Sucintamente, o battle rap tem como objectivo a competitividade dentro da própria cultura hip-hop, quer grupal quer individual.

Depois de apresentar os casos portugueses que pegam nas influências desta linha musical, assim como em dois subgéneros do rap, devem reter-se alguns aspectos. Primeiro, a união; retirando a essência unitária grupal originária dos EUA, atinge-se uma visão de educar para a união com a cultura hip-hop, encaminhando vários projectos com propósitos lúdicos e de cidadania. Segundo, a reflexão; recorrendo a mecanismos mais usuais, ligados a um certo grupo massificado de apreciadores desta circunscrição cultural, torna-se possível compor letras fáceis de compreender, logo, acessíveis à generalidade das pessoas, começando nos mais novos. Terceiro, a concentração; visando uma maior adesão, uma maior educação, promover-se-á uma nova forma de olhar a música e, mesmo, uma nova forma de ver a vida e o mundo.

No projecto ‘Escolhas’ associado à ‘RadioActive 101’, existe resultados bem-sucedidos. Veja-se, por exemplo, na melhoria do desempenho académico: “a estrela [de mais uma emissão] é Rodrigo Florim, o menino de 13 anos que tem cinco em todas as disciplinas.”

Em suma, embora necessite do seu tempo e da sua adaptabilidade, o hip-hop consegue educar e mudar mentalidades. Com toda a descrição de visões mais antigas e mais recentes, verificou-se que o hip-hop se classifica como uma cultura, sendo o rap um símbolo de distinção social, mais do que um mero conjunto de produtos cantáveis e atractivos. Além disso, mostra-se igualmente como educar e mudar mentalidades pode ser possível nos meios mais massificados.

Pedro Ribeiro

Vimaranense, 24 anos e recetivo a desafios, ocupo a maior parte do meu tempo em torno das áreas dos Média e da Comunicação. Sou estudante de doutoramento em Ciências da Comunicação e procuro oferecer a minha perspetiva da forma mais íntegra possível. Numa sociedade de pouco sentido crítico e muito moralismo, procuro trazer debate com conhecimento, procurando perceber e aprender mais. Não fosse isso um motor para a vida, o conhecimento. Já escreve Nietzsche, na sua obra 'Assim Falava Zaratustra': 'O Homem só existe para ser superado.'

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