Amar

Não sei porque é que as pessoas se escolhem umas às outras em detrimento de outras que não se elegem. Nem sei a verdadeira engrenagem que causa o facto de umas quantas ficarem nas nossas vidas por tempo mais prolongado.

No entanto sei dessa sensação de se amar e ser amado. Dessa gana de não se poder esperar para ver o outro, sentir o outro, abraçar o outro. Da sensação inexplicável de se ter a cabeça sempre noutro sítio, nas memórias do que se disse, falou ou fez. Assim se imortalizam fragmentos de segundos em longas e extensas imagens que, sem querer, dissecamos em busca de novos significados.

Não se aguentam a passagem das horas ou dos dias, só para ter, nem que seja um pouco, a pessoa que significa o combustível.

A ânsia de se amar e ser amado faz parte de nós e por muito que se tente justificar, o amor é inexplicável. Sentir que quem amamos nos corresponde, é das melhores sensações que se pode ter e isso não se explica. Tudo o que engloba não tem justificação. Amar é uma força tão maior que não é passível de se traduzir em palavras.

Mas o amor não é simples. Nem sempre correspondido. E se correspondido, nem sempre entregue. Muitas vezes quem se ama, não se quer dar. Outras vezes, quando amamos, temos pavor de assumir o que sentimos.

Temos receio de que nos usem, mas usamos os outros. Temos medo da solidão, mas não admitimos que queremos algo mais. E, se por ventura, alguém se atreve a ficar uns tempos só, é visto como inadequado, anormal, fora do rebanho. Não se reconhece que amar leva tempo e que é sempre muito mais fácil fingir que se ama para se pertencer ao perfil certo do que a coragem de admitir que só amamos quando realmente nos vale a pena.

Longe vão os tempos em que se prolongavam por longas e sofridas melancolias o amor não correspondido. É preciso aceitar que o amor-próprio não requer sofrimentos auto-infligidos e que se um outro coração não acolhe o nosso, é preciso buscar quem o envolva em contornos felizes e mais saudáveis. Não há amor verdadeiro sem que o que quer que esteja cá dentro esteja um pouquinho resolvido.

Amar aquece, confunde, arde, dói, magoa, alimenta, faz chorar, sorrir sem porquês. Faz-nos questionar, fechar portas, abrir outras e iludir o tempo. Amar não tem idade e não requer justificações.

Ao passarmos uma vida sem amar e sermos amados, perdermos o que de melhor ela nos pode oferecer. Só nos amores, nos nossos amores, nos descobrimos como um todo.

Share this article
Shareable URL
Prev Post

O Muxito

Next Post

Dar a Volta Por Cima

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

Read next

Filha da Lei

Fala-se muito em produção nacional e por isso resolvi escrever sobre um produto português que a meu ver não tem…

Kiss, Kiss, Bang, Bang

No momento em que The Big Bang Theory decidiu apostar num romance entre Leonard e Penny, começou a surgir uma…

Querido Pai Natal…

Chega o mês de Dezembro e este senhor barbudo de vestes vermelhas e brancas e de origem nórdica não tem mãos a…