Quando tiveres 90 anos e olhares para tudo o que viveste, o que gostarias de ver para sentires que tiveste uma vida bem vivida?
Dizem que só vivemos bem connosco, quando encontramos o sentido da vida. Todos nós, em algum momento, tentamos explicar a nossa existência de uma forma mais matemática ou mais filosófica, compreender o sentido da vida, o nosso percurso e os altos e baixos, leva-nos a uma introspeção e o resultado acaba por ser algo bem individual, como uma crença pessoal. Há quem se limite a explicar os acontecimentos que vamos experienciando, como mera sorte, como fruto de um qualquer compromisso religioso ou atribuindo ao nosso próprio comportamento, onde o universo conspira fatalmente ou não a nosso favor, consoante a nossa energia emanada resultando também na energia devolvida.
Por vezes quando contemplamos o mundo presente, observamos uma dança de objetos e pessoas que não sabemos para onde vão nem o que fazem ali e de repente, há sempre um momento, que tudo fica alinhado e tudo faz sentido. Será isto uma espécie de Matrix? Estaremos condenados ao nosso destino? As nossas escolhas são realmente necessárias ou já estará tudo decidido, mesmo antes de nós pensarmos que o estamos a fazer? Existirá ou não o livre arbítrio?
Há sempre uma altura, onde questionamos o presente, o passado, fazemos um balanço e podemos abordar a nossa existência, neste momento chamado vida, de duas formas: Somos donos do nosso destino, conseguimos ir onde queremos, ou de alguma maneira estamos efetivamente presos a um futuro destinado, que pensamos controlar, mas pouco podemos alterar o destino já escrito. Talvez seja como uma espécie de acordo que fizemos antes de vir a este mundo, é-nos dada a conhecer o nosso propósito e caminhada e aceitaríamos a vida, é delicioso romantizar e acreditar que os anjos selam a nossa memória (como que dizendo: Xiu!..) com o dedo indicador num toque em cima dos lábios, formando o arco do cupido. Isso explicaria o fenómeno do “deja vu”, como uma espécie de falha no reset ao nosso “software”, em que por breves instantes possamos ter lembrança de acontecimentos de outras vidas. Acreditar que fomos aqui colocados, sabíamos para o que vínhamos. Subconscientemente sabemos aquilo que aceitamos viver nesta dimensão, com todas as condicionantes pré-aceites.
Pode ser esta a solução para sermos felizes e aceitarmos tudo o que de bom a mau nos acontece na vida, porque desde cedo, somos levados a crer que a qualidade das nossas ações é determinante para a sorte dos nossos futuros acontecimentos. À medida que vamos experienciando os factos nos vários capítulos da nossa existência, percebemos que essa teoria causa efeito, é profundamente falsa. Que mal fez uma criança que morre à fome em Africa, sem ter tido qualquer oportunidade real? Então sabemos que nas contas desta vida, nem sempre todos têm aquilo que merecem, conseguimos ser felizes sabendo isso? Quantas vezes não refletimos sobre a forma como estamos a viver a nossa vida, qual o propósito da vida e a inconstância de nossa felicidade, pensamos: “Não sei jogar a isto”, ou “quando me for, o que vou deixar para o mundo?”
Para alguns, ter uma vida bem vivida é ter saúde, uma família feliz, um emprego de sonho, ser milionário, ter uma alma-gêmea, melhor ainda é ter todos estes aspetos, realizados diariamente como se de uma constante se tratasse, treta! Na realidade, a felicidade constante não existe, o segredo é aceitar os momentos de felicidade que vamos tendo a possibilidade de experienciar nesta curta passagem neste momento chamado vida, fazer menos planos, até porque está sempre agendado para aí algum fim do mundo (algum meteorito ou algo do género), então devemos baixar as expectativas, não viver numa rotina, viver na diferença dos dias enriquecer a nossa alma com a novidade.
Podemos ser o nosso pior inimigo, quando nos focamos no negativo, quando não temos o mindset certo, não nos devemos deixar arrastar pela nostalgia dos dias quando nada acontece, pois esses os dias transformam-se em semanas, as semanas em meses e os meses em anos. Resoluções de ano novo por terra, ficas a espera que algo bom aconteça, mas é um oceano de nada. Tentas não te afogar nesse mar vazio de realidades e cheio de sonhos, mas nada fazes para inverter essa tendência, é fundamental sair da zona de conforto, pois está provado que nos últimos segundos da nossa vida, sempre nos vamos arrepender mais do que não fizemos, do que daquilo que fizemos.
Certo é que nenhum ser sente que teve uma vida bem vivida e feliz, se for desprovido de liberdade. A falta de liberdade pode ser cruel, estar no local errado e no tempo errado, nada pior que ter sido judeu durante o holocausto ou um mulato no Apartheid.
Neste laboratório de vaidade outrora conhecido como Humanidade. A liberdade não é uma ideia, mas um processo, que não se limita a questões sociais ou políticas, mas acima de tudo de um aprisionamento mental, livre é aquele que nada teme, deve ou responde a qualquer outro ser. A felicidade nunca será uma constante. A nossa verdadeira libertação é crucial para que a soma das horas felizes subtraídas pelos momentos conturbados, seja superior a zero. Desenvolver a nossa autoestima e assumir a nossa singularidade. Entender e aceitar que na verdade não existem finais felizes, tudo um dia acaba. Aceita.
Reencontra-te contigo. Pará. As vezes forem necessárias. Observa. Recomeça. Muda de direção. Segue os teus instintos, valoriza aquilo que é mais virtuoso, quanto mais cedo entendermos que somos perfeitamente felizes sem tudo aquilo que pensávamos que precisávamos, que as coisas externas não nos preenchem, apenas atenuam carências, que o verdadeiro preenchimento é interno. Sai dessa escravidão. Sê livre. Quando tivermos 90 anos, saberemos que tivemos uma vida bem vivida, se olharmos para trás e percebermos que não deixámos a nossa mente nos aprisionar, que fomos aprendendo a reinventar os nossos sonhos, que acima de tudo, tivemos a coragem de ignorar tudo o que nos fazia infeliz e tivemos a capacidade de abrir o nosso coração para nos dedicarmos de corpo e alma a novas paixões. Sê feliz.