A ervanária

Assim como falar. Tinha a maior dificuldade com palavras que não designassem algo que cheirasse, portanto com conceitos abstratos, sobretudo de natureza ética e moral.

– O Perfume

A minha verdadeira história começa aqui. Maio, há 4 anos.

Chamava-se Lúcia Lima e trabalhava numa ervanária. Para muitos, seria a coincidência mais maçadora da história do universo. Para mim, foi o início da revelação. Foi nessa altura que descobri a felicidade, o verdadeiro significado da minha existência. Antes da descoberta que vos contarei, a minha vida resumia-se a ser vulgar, era um homem mortificado, percebo-o agora. Entendam que o dia-a-dia de um taxidermista é bastante redutor, uma profissão desprovida de qualquer entusiasmo. Limitamo-nos a simular a vida num corpo que já a teve e que nunca mais a terá. Um corpo morto, uma nova pele. Um embuste.

Eu tinha 35 anos acabados de fazer e nunca gostei do sabor insípido, mas principalmente do cheiro mortiço de um chá. Tornei-me cliente habitual daquele sítio, por um acaso ainda hoje difícil de explicar: absorvido pelos meus pensamentos, entrei distraidamente numa loja e pedi uma garrafa de vinho tinto “Montez Velho”. A funcionária não me cumprimentou, não respondeu. Depois de alguns segundos de um silêncio confrangedor, levantei a cabeça, olhei em volta e percebi o estúpido erro que acabara de cometer. A vergonha subiu-me até às bochechas, ruborizei. Perante aquela indiferença, que me era dolorosa, decidi contornar o embaraço, e numa tentativa de disfarçar a situação, perscrutei a loja em busca de uma escapatória. Era uma ervanária com um estilo moderno mas misturado com vários artefactos antigos. Em cima do balcão, uma balança de metal com números descomunais a fazer lembrar as balanças antigas de mercearia. A loja tornava-se cada vez mais acolhedora à medida que a íamos descobrindo, com bastante luz artificial, lâmpadas embutidas no tecto falso e apontadas estrategicamente às embalagens. Os produtos estavam expostos por cores, o que lhes conferia um aspecto arrumado e harmonioso. Percorri as prateleiras e, sem saber o que estava a fazer, escolhi uma embalagem de forma aleatória. Lúcia-lima não era o meu chá preferido – aliás, nenhum era -, mas a minha mão desgovernada foi mais rápida que a minha vontade e transportou a embalagem até ao balcão. Quando os meus olhos estacaram na placa com a inscrição do nome da funcionária, senti que a tentativa de remediar a situação tornara tudo ainda mais embaraçoso. Gaguejei, pensei em pedir desculpa mas não encontrei uma razão válida para o fazer. Foi nessa altura confrangedora que tudo aconteceu, que eu senti o que nunca imaginei ser possível.

Lúcia Lima era uma mulher demasiado enfadonha, nada tinha de especial. Carregava a ambição de uma folha de camomila; vivia sem propósito, como se a sua própria vida nunca lhe pertencesse. Limitava-se a existir. Tinha um olhar vazio e uns mamilos espetados como se fossem duas avelãs. Mas foi o seu cheiro que espoletou tudo. Foi aí que a metamorfose aconteceu, que eu me tornei no que sou hoje. Cheirava a naftalina. Estremeci. Fechei os olhos e inspirei. Uma e outra vez. O meu coração acelerou. Excitei-me. Naftalina. Entranhou-se nas narinas, colou-se no corpo. Naftalina.

No início, achei que alguma coisa em mim não estava bem. Adormecia com aquele cheiro, acordava ansioso por voltar a senti-lo. Ficava enjoado e inquieto, o que me causava um grande sofrimento. Andei confuso, os primeiros tempos foram insuportáveis, estive a ponto de me matar. Cheguei a pensar que era uma maldição. Depois, aos poucos, habituei-me, entendi a bênção que é descortinar cheiros, descobri-me finalmente. Todos os dias voltava à ervanária, ao aroma viciante. Como desculpa, comprei inúmeras embalagens de chá que nunca consumi. Eu já vivia no reino dos odores e estava ávido de experiências, queria o melhor, procurava o pináculo da exaltação. Naftalina. Afinal, os chás pertencem apenas ao mundo dos odores falhados, quando comparados com todos os outros. Naftalina. Eram tempos de enorme felicidade. Uma excitação gloriosa crescia-me nas entranhas, uma força difícil de contentar.

Porém, como tudo começa também chega ao fim. Certo dia, cheirei-lhe o cancro. O sangue doente, a morte. O pânico invadiu-me, senti-me terrivelmente perdido. A minha desorientação perante o propósito que deixaria de o ser, a dor insuportável daquela perda iminente. A doença iria roer-lhe os ossos, mastigar-lhe a carne, levar-lhe-ia para sempre o cheiro a naftalina.

Desesperado, tentei esquecer, procurar outros aromas, evitei voltar à ervanária. Nessa altura, de desorientação, deambulei pelas ruas à procura do aroma a lixo, pelos becos que tresandavam a urina e ratos mortos. Habituei-me aos horários das peixarias e, nas suas traseiras, procurava peixe podre, preciosidade que guardava cuidadosamente em casa. Derramei litros de leite azedo nas carpetes da sala, procurei o mofo nas paredes, esfreguei os lençóis da cama no chão da casa de banho.

Nos dias de calor, persegui pessoas suadas, impregnadas de odor a cebola. Imaginei-me a viver no século XVIII, a sorte que seria percorrer valas e mercados pestilentos, meter o nariz em funerais, o perfume da morte nos cemitérios. Mas nada parecia resultar.

Naftalina.

Foi então que me ocorreu a mais brilhante das ideias. Peguei nos químicos, no bisturi e nas luvas. Conservar-lhe-ia a pele, o cheiro. Poupá-la-ia ao sofrimento prolongado da doença, impediria que os seus dias se degradassem e eternizar-lhe-ia o cheiro.

Livrá-la da dor, apropriar-me do seu aroma. O plano perfeito. Pura beleza.

Alguns meses mais tarde, o destino conduziu-me novamente à porta da ervanária. Hesitei, mas decidi entrar. A decoração quase não mudara, embora o ambiente parecesse renovado. Calcorreei os corredores, mexi nas embalagens, li os rótulos. Entregue a um profundo alheamento, não reparei que alguém se aproximava. Foi quando a funcionária me abordou que voltei à realidade.

Chamava-se Jasmim. Cheirava a naftalina.

Share this article
Shareable URL
Prev Post

Processo, logo existo

Next Post

Situação Crítica

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

Read next

Cheiura de Alma

Amantina tinha cerca de duzentos anos, embora não aparentasse mais de cem. Estava cega, enrugada e lenta, mas…