Os 21 Anos já não é Sinónimo do Grito de Ipiranga

Antigamente, os jovens chegavam aos 21/22 anos e davam o seu grito de Ipiranga, deixando a casa dos seus pais e seguindo uma vida independente. Actualmente, isso não se vê. Os 21 foram substituídos pelos 25 e, em alguns casos, 30 anos.

Segundo os dados do Eurostat, em 2013, 45.0% dos jovens portugueses entre os 24 e os 35 viviam em casa dos pais. A média europeia dos 28 estados é de 28.7%. A média aumenta, se alargarmos o espectro de comparação, sendo que 60.3% dos jovens portugueses dos 18 aos 35 anos viviam em casa dos pais, enquanto que, em termos europeus, o número é de 48.2%. Estes números demonstram uma Europa a dois ritmos. No sul e a leste, os jovens vivem mais tempo em casa dos pais e, no norte, saem de casa dos pais mais cedo, com a Dinamarca, a Suécia e a Finlândia com números perto dos 5%.

Estes números são também reflexo da forte crise económica sentida no continente. Os países mais atingidos revelam percentagens maiores, mas a crise não é o único factor. Sair de casa dos pais é uma decisão difícil, quando confrontados com a realidade da vida adulta. Uma parte destes jovens não tem como se sustentar. Uns encontram-se desempregados. Outros têm emprego, mas não têm dinheiro suficiente para pagar uma renda, alimentação e despesas correntes (situação de privação).

Num relatório apresentado pela Caritas Europa, baseado em dados do Comité Social de Protecção, foi avaliado o impacto das medidas de austeridade em 6 países: Grécia, Chipre, Espanha, Irlanda, Itália e Portugal. Concluiu-se que nestes países e derivado às medidas de austeridade implementadas, os jovens que entram no mundo do trabalho, estão desprotegidos. Outro factor a pesar é também a questão cultural, os jovens adultos nestas faixas etárias foram criados numa sociedade onde a emancipação juvenil pouco, ou nada foi promovida, ao contrário dos países do norte da Europa.

Viver às custas dos pais, é de certa forma parte da cultura. Os filhos estão em casa e os pais suportam os custos, porque de uma forma, ou outra acredita-se que, quando terminar os estudos, arranjará um emprego, algo que nos dias de hoje pode arrastar-se por alguns anos, e seguirá a sua vida. No entanto, esta forma de pensar e viver pode ser uma armadilha e é uma das responsáveis pelo aparecimento da chamada Geração Canguru, jovens que nunca saíram de casa, ou, se o fizeram, foi por um curto período, que optam por ficar em casa dos pais pelo conforto e segurança que essa situação os coloca.

Num artigo sobre o tema, o Der Spiegel recorda também a Geração Boomerang, os jovens que tiveram de regressar a casa dos pais por se terem confrontado com dificuldades económicas, a chamada privação. Por vezes, quando estes jovens regressam a casa dos pais estão acompanhados pelos próprios filhos. Existe ainda outra questão associada a este regresso a casa dos pais, que Manuel Peixoto alerta. Este terapeuta familiar refere que de Boomerang estes jovens podem tornar-se na Geração Sanduiche, ou seja, jovens que vivem em casa com os pais e os filhos, jovens que vivem “presos” entre estas duas gerações, e alertou para a forte pressão e stress a que são submetidos.

A fragilidade de muitos jovens adultos pode ter como consequência a exclusão social, ou problemas psicológicos e emocionais. Muito se fala de uma geração perdida, mas este conceito é rejeitado pelos autores dos diversos estudos feitos. Anna Ludwinek do Eurofound explica que a utilização desta retórica é “negativa e desencorajadora” para ela. “Os jovens não se sentem excluídos, mas sentem que a vida complicou-se, o seu valor não é reconhecido, que não conseguem encontrar um emprego de qualidade. Isto quer dizer que não estão desligados. Não se sentem excluídos, mas querem mudança e sentir-se valorizados.” Esta geração pode estar à rasca, mas está longe de estar perdida.

É baseado nestas questões que a União Europeia tem-se debruçado, é necessário não nos esquecermos que a juventude é um importante recurso da Europa, a juventude representa o potencial presente e futuro e enfrentam muitos desafios, nomeadamente o desemprego e os problemas sociais. A forma de enfrentar esses desafios presentes e prevenir problemas futuros passa pela acção dos Estados-membros na criação e implementação de mecanismos de promoção do emprego jovem, educação, formação e protecção dos jovens. É necessário criar um impulso que leve os jovens adultos a emanciparem-se.

Share this article
Shareable URL
Prev Post

É estúpido. Está resolvido!

Next Post

Nada é o que parece

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

Read next

Ele está vivo!

Amar! Mas de um amor que tenha vida… Antero de Quental, in Sonetos Gosto tanto de ti! Gosto da tua…