O problema da desilusão é que ela nunca vem de um inimigo

Quem nunca sofreu uma desilusão? Amorosa, com amigos, familiares, com situações ou com a própria vida.

Seja de que género for, a desilusão parte sempre da mesma premissa: a criação de expectativas que depois nos saem defraudadas pelas mais variadas razões. E o sentimento é avassalador. Porque vem de onde menos esperamos – por isso, desilude. E nunca de um inimigo.

Sim, um inimigo na realidade nunca desilude. Quando age como tal, está à altura das expectativas. Quando não age, surpreende… pela positiva.

Com um amigo não é assim. Pensamos que alguém é de determinada maneira, confiamos que vai agir de uma determinada forma e, quando tal não acontece, a surpresa é sempre amarga. O mesmo com as situações e com a vida em geral, quando imaginamos e acreditamos que algo vai ocorrer e depois não ocorre. Ou pelo menos não da forma que pensávamos.

A criação de expectativas, embora em muitos casos inevitável, é normalmente o caminho para nos decepcionarmos. Porque as pessoas nunca são exactamente como mostram, as situações nunca são líquidas e a vida essa é uma eterna incógnita. É assustadora essa imprevisibilidade, mas, ao mesmo tempo, aquilo que dá toda a beleza e graça ao “viver”.

O mesmo se passa com as pessoas. Quando pensamos que elas irão agir como nós agiríamos numa determinada situação, estamos a cometer o primeiro erro. Não somos todos iguais, não pensamos todos da mesma forma, não temos todos o mesmo background e há inúmeros factores que condicionam a nossa actuação a cada momento. Não raras vezes, não são as pessoas que nos decepcionam, mas, sim, as expectativas que depositamos nelas. É o querer que elas façam por nós aquilo que faríamos por elas. Ou que ajam numa situação como nós agiríamos.

À medida que nos vão decepcionando, o natural é começarmos a ganhar defesas. Contudo, nem sempre acontece. Aqueles que vêem sempre o melhor das pessoas são os que mais se desiludem, porque não conseguem adquirir o filtro que lhes permite separar o trigo do joio. Não lhes é inato. Dão tudo de si, esperam tudo dos outros e, numa sociedade cada vez mais egoísta e egocêntrica, estão fadados ao sofrimento. Eventualmente, começam a desacreditar. E assim perdem a sua essência. E o brilho no olhar.

Cruzo-me com tantos assim por aí. E é tão triste.

Como é maravilhoso não ter barreiras sociais e emocionais. Tão autêntico, tão old school. Cada vez mais impossível, porque a desilusão nunca vem de onde esperamos que venha. Senão não desiludia. Vem daqueles que trazemos junto a nós, vem daqueles que esperamos que nunca nos falhem, vem dos sonhos que mais almejamos, vem da vida que mais queremos viver e vem da pessoa que mais queremos ser… Sim, porque também nos desiludimos a nós próprios. Por omissão, sobretudo.

No entanto, é quando ganhamos verdadeira noção de que não controlamos tudo que as desilusões começam a diminuir. E quando percebemos que o nosso melhor amigo somos nós!

A autora escreve segundo a antiga ortografia
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