Espelhos

Ela não era das que agradavam a todos os espelhos, mas era feita de erotismo, de estranheza e de poesia. Ele estremecia quando pensava na pele das coxas dela a ceder debaixo das suas mãos, os dedos a encontrarem-se com a meia-liga surpresa, sorriso escarlate e olhos inteligentes que prometiam torná-lo capaz de revelar todos os seus mistérios. Ela era assim: inexplicável, clandestina, uma implosão afiada de ideias absurdas e geniais. Atrás das pálpebras, o cheiro dela. Atrás das pálpebras, o cabelo dela.

Acordou encaracolado na poltrona. A língua gigante e pastosa. A garrafa de whisky no chão, vazia: um cliché para corações partidos. A cabeça entorpecida – ele a dar graças pela distracção e a amaldiçoar a sua fraqueza. Na sala pairava o fantasma do fedor a álcool e a desprezo. O demónio observava-o, de cócoras – um espião que procura apoderar-se de um segredo. Ele arrastou-se até à cama e deitou-se de novo, de barriga para cima. O mundo andava a alta velocidade e esquecia-se dele com o passar de cada segundo. Um dia, nem um nome seria na memória de alguém. O mundo era um bloco de gelo, nenhuma fogueira o poderia aquecer. O telhado tinha um enorme buraco e ele era o demónio. O demónio tinha-o seguido e, no entanto, ele continuava a ser o demónio. O demónio não lhe falou e ele também o ignorou. Ainda bem que o demónio não lhe falou, ele podia adivinhar que teria a voz dela. Percebeu tarde demais que tinha a casa cheia de espelhos. Mas nada disso importava: estava escuro lá fora, o céu estava despovoado e ele tinha medo de sentir.

«E então?»

A realidade ali. Os olhos dos gatos a observarem-nos em silêncio. Perspicazes. Elegantes. Gatos que só existiam na quietude noite, que pareciam ter chegado ali com o único intuito de os fitar e de lhes lançar expectativas inconcebíveis.

«E então?», repetiu-lhe ela, os pés nus de fora da janela do quarto. Roçou uma das suas pernas nele. A brisa quente daquele Verão imenso e interminável.

«Que pergunta ridícula» voltou dos seus medos e finalmente teve forças para lhe responder: «Sei lá eu o que faria sem ti!»

Share this article
Shareable URL
Prev Post

Os 10 maiores acidentes aéreos da história

Next Post

O futebol no feminino – a Mister

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

Read next

J.P. Mendes

Quer seja no carro, no telemóvel, no computador, em casa ou no trabalho, é pela rádio que ouvimos…

Som do passado

Admiro a cabine telefónica através de uma janela partida. Uma teia de vidro transforma a minha percepção; aquele…